Crescimento Pós Traumático

No post anterior sobre lembranças positivas, apresentei rapidamente o conceito de Crescimento Pós Traumático – CPT (Posttraumatic Growth – PTG em inglês). Como algumas pessoas me procuraram para saber sobre o assunto, resolvi abordar um pouco mais este tema tão intrigante.

Como o próprio nome aponta, o conceito surgiu em contraposição ao diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós Traumático – TEPT, amplamente utilizado após a Guerra do Vietnã, momento em que se observou que muitos ex-soldados americanos apresentavam sintomas semelhantes decorrentes da violência vivenciada durante o conflito.

Este transtorno também pode emergir após acidentes, sequestros, assaltos ou estupros, situações de extrema violência que causam traumas psíquicos profundos. Em decorrência, a pessoa passa a experimentar os seguintes sintomas: torpor emocional, pensamentos intrusivos (flashbacks), pesadelos frequentes, isolamento social, hipervigilância, insegurança, ansiedade, pânico. O filme Nascido em 4 de Julho, com Tom Cruise, ilustra bem o quadro.

O que há em comum entre os dois conceitos (TEPT e CPT) é a vivência de uma situação de grande violência ou ameaça, em que a pessoa se sente completamente desamparada e isso marca a sua subjetividade. Em ambas as situações há um grande sofrimento associado, marcado por sintomas de ansiedade generalizada e depressão. Contudo, enquanto no primeiro caso a pessoa é acometida dos sintomas listados no parágrafo anterior e tem muita dificuldade em superá-los, no segundo caso, após decorrido um tempo, o indivíduo passa a relatar um nível de funcionamento psicológico superior, com o fortalecimento de suas forças pessoais.

Em seu livro Florescer, Seligman ilustra o conceito de CPT com o exemplo de Rhonda Cornum, médica e ex-prisioneira de guerra no Iraque. Após o helicóptero em que estava ser atingido, Rhonda foi capturada com dois braços e uma perna quebrados. Nem precisamos falar aqui sobre as violências sofridas após a captura. Libertada oito dias depois, Rhonda voltou como heroína de guerra e relata as seguintes sequelas de sua experiência pós traumática:

  1. melhora no seu relacionamento com os pacientes;
  2. fortalecimento de sua auto eficácia, pois sente menos ansiedade e medo quando se depara com desafios;
  3. valorização da família, se tornando uma esposa e uma mãe melhor e mais atenta;
  4. abertura para a percepção de uma vida espiritual (se tornou mais espiritualizada);
  5. mudança em suas prioridades de vida.

Observamos neste exemplo que a situação traumática foi ressignificada e transformada em um impulso propulsor de mudanças na vida de Rhonda, principalmente na forma como ela se relaciona com familiares e pacientes e como se sente diante de novos obstáculos e desafios.

São comuns relatos de pessoas que passam por um câncer e dizem terem se tornado pessoas melhores, mais sábias, fortes, condescendentes e espiritualizadas. Neste caso, a violência da doença desde o seu diagnóstico até a conclusão do tratamento é percebida como um evento traumático que, após um período de intenso sofrimento, promove mudanças subjetivas e comportamentais significativas.

Quais são os fundamentos do Crescimento Pós Traumático? A Psicologia Positiva se baseia justamente no entendimento de que a nossa vida, e consequentemente nossa felicidade, é construída a partir de nossas percepções e das interpretações que escolhemos dar aos acontecimentos. A partir do momento que Rhonda decidiu se tornar uma médica mais atenta e uma mãe mais presente, esta atitude repercute em todo o seu modo de vida, trazendo mudanças profundas.

Há atualmente nas Forças Armadas americanas um programa de formação de soldados que visa a prevenir a ocorrência de TEPT. Este programa foi desenvolvido pela equipe de Seligman com a participação de Rhonda e abrange técnicas e conceitos da Psicologia Positiva.

Estas técnicas também são utilizadas em psicoterapia para auxiliar as pessoas a enfrentarem seus traumas e sofrimentos pessoais, por meio da modificação de crenças conscientes e inconscientes, por meio do fortalecimento das forças pessoais e do reforço dos relacionamentos de suporte.

Clique aqui e assista a um vídeo de apenas 3 minutos do TED Talks que resume tudo o que foi dito neste post.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

O livro Florescer do Martin Seligman está disponível na Amazon: Florescer

Lembranças positivas

Dia desses meu filho levou um grande tombo de bicicleta ao não conseguir fazer uma curva em velocidade. Horas antes ele tinha visto um ciclista cair também, em razão de um pneu furado. No dia seguinte, as duas histórias haviam se misturado em sua mente: ele caiu de bicicleta porque o pneu furou.

Já reparou que cada pessoa lembra de um evento de uma forma? Passei a minha infância brincando com meu irmão. Quando falamos desta fase de nossa vida, cada um conta uma história diferente, com lembranças e significados distintos. Quem está contanto a verdade? Os dois.

Nossa memória não funciona como um computador, apesar das diversas metáforas utilizadas para comparar os dois sistemas de armazenamento de informações. Enquanto um funciona como um depósito de registros, o outro percebe, seleciona, interpreta, registra e, ao vivenciar novas experiências, ressignifica os arquivos anteriores. Assim, nossa memória é viva e vai sendo construída sob a interferência de nossas emoções e pensamentos.

A subjetividade presente no mecanismos de memorização e de recordação que constroem nossas lembranças nos permite ter influência sobre o processo. Podemos filtrar e reinterpretar nossa lembranças, mesmo que inconscientemente, de acordo com as personagens que criamos para nós mesmos.

Freud foi o primeiro a utilizar este mecanismo na clínica do sofrimento mental. Ao falar sobre um trauma e poder ressignificá-lo, o paciente se torna autor de sua história e deixa de ser vítima dos acontecimentos.

Martim Seligman escreveu sobre este processo em seu livro “Florescer” ao discorrer sobre o conceito de Crescimento Pós-Traumático. Enquanto nos casos de Estresse Pós-Traumático a pessoa fica presa em suas memórias negativas em razão da violência presenciada e sofre com diversos sintomas associados a estas memórias (lembranças angustiantes, recorrentes e involuntárias do evento traumático, pesadelos, flashbacks, etc), no Crescimento Pós-Traumático o evento negativo é reinterpretado sob uma nova ótica e torna-se uma oportunidade de crescimento pessoal.

Não se trata de minimizar o sofrimento associado aos eventos traumáticos, mas de limitar o efeito negativo deles sobre a nossa existência. Em vez de deixa-los reverberar indefinidamente, comprometendo a nossa qualidade de vida e permitindo que eles gerem ainda mais sofrimento, podemos mudar o foco e transformá-lo em uma experiência transformadora, em um ponto de mudança, limitando o sofrimento e se permitindo ser feliz novamente.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

O livro Florescer do Martin Seligman está disponível na Amazon: Florescer

 

Permissão para ser humano

Muitas críticas à Psicologia Positiva relacionam-se ao entendimento equivocado de que esta disciplina apregoa a felicidade plena. Não se trata disso. Primeiro que a felicidade permanente não existe, pelo menos não na realidade que vivenciamos atualmente. Segundo, somos humanos e, portanto, passíveis de sentirmos toda a sorte de emoções. E mais que isso: sentir tristeza é fundamental para que também possamos sentir alegria. As duas emoções trafegam pelo mesmo canal e este deve estar desbloqueado para que elas possam fluir.

Assisti recentemente a um pequeno vídeo que ilustra muito bem isso. Ahmad Joudeh, um bailarino sírio (se ser bailarino no Brasil já é difícil, imagina na Síria!), fala sobre o preconceito e as dificuldades para dançar ballet em seu país de origem, principalmente após o início da guerra. Desafiando todo o status quo e correndo o risco de ser sumariamente executado em um anfiteatro, seu amor à dança percorreu o mundo e comoveu pessoas que puderam lhe ajudar. Ahmad foi então convidado pelo Dutch Nacional Opera & Ballet a integrar a companhia e a se mudar para a Holanda.

Teoricamente, um final feliz. Mas a nossa mente não funciona bem assim. Ao chegar à Amsterdã e poder ensinar e dançar ballet sem sofrer com os preconceitos e, principalmente, vivenciando a realidade de um país em paz, Ahmad sentiu culpa por sentir-se feliz. Pois é. Ele relata então algo que tem tudo a ver com a Psicologia Positiva: a guerra, que fez milhares de pessoas vivenciarem grandes perdas, o havia anestesiado. Para não sentir tanta dor, tanto medo, tanto terror, ele bloqueou suas emoções negativas, mas ao fazer isso, ele havia bloqueado as emoções positivas também. Assim, quando vivenciou aquele sentimento de felicidade que nos transborda, sentiu estranhamento e culpa. Sua tarefa agora era aprender a sentir novamente e permitir-se ser humano.

Em nossos pequenos dramas cotidianos, também nos fechamos para as emoções negativas. Bloqueamos tudo o que nos faz sofrer. Como efeito colateral, a alegria, a gratidão, a compaixão, o contentamento, também vão ficando mais distantes e a nossa vida, em vez de colorida, vai ficando cada dia mais cinza. Sentir raiva, inveja, tristeza, portanto, faz parte de nossa natureza humana e é o que nos torna tão plurais. Temos de reaprender a sentir e a nos permitirmos sermos algo que na infância aprendemos que era “feio”.

Na tentativa de nos ensinar a não sermos agressivos, a não roubarmos, a não mentirmos, nossos pais e educadores muitas vezes confundiram nossos comportamentos e emoções.  Até hoje, na vida adulta, as coisas ainda são muito confusas para nós e nos sentimos culpados pelos nossos sentimentos negativos e, por isso, os negamos ou os bloqueamos (A Psicologia Junguiana chama isso de Sombra). Mas sentir raiva e bater em alguém são fenômenos muito diferentes. O primeiro pertence ao campo das emoções, o segundo, das ações.

Precisamos policiar nossas ações para termos atitudes respeitosas com os outros e conosco mesmos. Mas nossas emoções são todas lícitas e fazem parte da nossa natureza humana. Vamos nos permitir sermos humanos!

Saiba mais assistindo ao filme Divertidamente , um desenho de animação da Disney que retrata muito bem a importância que as diferentes emoções possuem em nossa vida. 🙂

Vania Moraes, psicóloga e life coach