Permissão para ser humano

Muitas críticas à Psicologia Positiva relacionam-se ao entendimento equivocado de que esta disciplina apregoa a felicidade plena. Não se trata disso. Primeiro que a felicidade permanente não existe, pelo menos não na realidade que vivenciamos atualmente. Segundo, somos humanos e, portanto, passíveis de sentirmos toda a sorte de emoções. E mais que isso: sentir tristeza é fundamental para que também possamos sentir alegria. As duas emoções trafegam pelo mesmo canal e este deve estar desbloqueado para que elas possam fluir.

Assisti recentemente a um pequeno vídeo que ilustra muito bem isso. Ahmad Joudeh, um bailarino sírio (se ser bailarino no Brasil já é difícil, imagina na Síria!), fala sobre o preconceito e as dificuldades para dançar ballet em seu país de origem, principalmente após o início da guerra. Desafiando todo o status quo e correndo o risco de ser sumariamente executado em um anfiteatro, seu amor à dança percorreu o mundo e comoveu pessoas que puderam lhe ajudar. Ahmad foi então convidado pelo Dutch Nacional Opera & Ballet a integrar a companhia e a se mudar para a Holanda.

Teoricamente, um final feliz. Mas a nossa mente não funciona bem assim. Ao chegar à Amsterdã e poder ensinar e dançar ballet sem sofrer com os preconceitos e, principalmente, vivenciando a realidade de um país em paz, Ahmad sentiu culpa por sentir-se feliz. Pois é. Ele relata então algo que tem tudo a ver com a Psicologia Positiva: a guerra, que fez milhares de pessoas vivenciarem grandes perdas, o havia anestesiado. Para não sentir tanta dor, tanto medo, tanto terror, ele bloqueou suas emoções negativas, mas ao fazer isso, ele havia bloqueado as emoções positivas também. Assim, quando vivenciou aquele sentimento de felicidade que nos transborda, sentiu estranhamento e culpa. Sua tarefa agora era aprender a sentir novamente e permitir-se ser humano.

Em nossos pequenos dramas cotidianos, também nos fechamos para as emoções negativas. Bloqueamos tudo o que nos faz sofrer. Como efeito colateral, a alegria, a gratidão, a compaixão, o contentamento, também vão ficando mais distantes e a nossa vida, em vez de colorida, vai ficando cada dia mais cinza. Sentir raiva, inveja, tristeza, portanto, faz parte de nossa natureza humana e é o que nos torna tão plurais. Temos de reaprender a sentir e a nos permitirmos sermos algo que na infância aprendemos que era “feio”.

Na tentativa de nos ensinar a não sermos agressivos, a não roubarmos, a não mentirmos, nossos pais e educadores muitas vezes confundiram nossos comportamentos e emoções.  Até hoje, na vida adulta, as coisas ainda são muito confusas para nós e nos sentimos culpados pelos nossos sentimentos negativos e, por isso, os negamos ou os bloqueamos (A Psicologia Junguiana chama isso de Sombra). Mas sentir raiva e bater em alguém são fenômenos muito diferentes. O primeiro pertence ao campo das emoções, o segundo, das ações.

Precisamos policiar nossas ações para termos atitudes respeitosas com os outros e conosco mesmos. Mas nossas emoções são todas lícitas e fazem parte da nossa natureza humana. Vamos nos permitir sermos humanos!

Saiba mais assistindo ao filme Divertidamente , um desenho de animação da Disney que retrata muito bem a importância que as diferentes emoções possuem em nossa vida. 🙂

Vania Moraes, psicóloga e life coach

4 respostas para “Permissão para ser humano”

  1. Excelente reflexão. Me fez pensar na criação dos meus filhos e no quanto é importante legitimar as emoções deles ao invés de ensiná-los a reprimi-las.

    Curtir

  2. Muito elucidativo. Nestes dias está realmente difícil ser humano. Além de estarmos sendo compelidos a bloquear muitos dos sentimentos (como frustração, decepção, medo e etc) também temos sido forçados a abrir mão de opiniões e valores, seja pelo “politicamente correto” ou pelo anseio dos “likes” das redes-socias.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s