Lembranças positivas

Dia desses meu filho levou um grande tombo de bicicleta ao não conseguir fazer uma curva em velocidade. Horas antes ele tinha visto um ciclista cair também, em razão de um pneu furado. No dia seguinte, as duas histórias haviam se misturado em sua mente: ele caiu de bicicleta porque o pneu furou.

Já reparou que cada pessoa lembra de um evento de uma forma? Passei a minha infância brincando com meu irmão. Quando falamos desta fase de nossa vida, cada um conta uma história diferente, com lembranças e significados distintos. Quem está contanto a verdade? Os dois.

Nossa memória não funciona como um computador, apesar das diversas metáforas utilizadas para comparar os dois sistemas de armazenamento de informações. Enquanto um funciona como um depósito de registros, o outro percebe, seleciona, interpreta, registra e, ao vivenciar novas experiências, ressignifica os arquivos anteriores. Assim, nossa memória é viva e vai sendo construída sob a interferência de nossas emoções e pensamentos.

A subjetividade presente no mecanismos de memorização e de recordação que constroem nossas lembranças nos permite ter influência sobre o processo. Podemos filtrar e reinterpretar nossa lembranças, mesmo que inconscientemente, de acordo com as personagens que criamos para nós mesmos.

Freud foi o primeiro a utilizar este mecanismo na clínica do sofrimento mental. Ao falar sobre um trauma e poder ressignificá-lo, o paciente se torna autor de sua história e deixa de ser vítima dos acontecimentos.

Martim Seligman escreveu sobre este processo em seu livro “Florescer” ao discorrer sobre o conceito de Crescimento Pós-Traumático. Enquanto nos casos de Estresse Pós-Traumático a pessoa fica presa em suas memórias negativas em razão da violência presenciada e sofre com diversos sintomas associados a estas memórias (lembranças angustiantes, recorrentes e involuntárias do evento traumático, pesadelos, flashbacks, etc), no Crescimento Pós-Traumático o evento negativo é reinterpretado sob uma nova ótica e torna-se uma oportunidade de crescimento pessoal.

Não se trata de minimizar o sofrimento associado aos eventos traumáticos, mas de limitar o efeito negativo deles sobre a nossa existência. Em vez de deixa-los reverberar indefinidamente, comprometendo a nossa qualidade de vida e permitindo que eles gerem ainda mais sofrimento, podemos mudar o foco e transformá-lo em uma experiência transformadora, em um ponto de mudança, limitando o sofrimento e se permitindo ser feliz novamente.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

O livro Florescer do Martin Seligman está disponível na Amazon: Florescer

 


  1. Pingback: Crescimento Pós Traumático « Você Mais Feliz

  2. Muito bom, as leituras tem sido muito proveitosas pra mim. Resignificar experiencias traumáticas sem subestimar o ocorrido. Parece um trabalho árduo.

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    • Que bom que você tem gostado, Sobral. Como muitas pessoas se interessaram pelo conceito de Crescimento Pós Traumático, vou escrever mais sobre ele nos próximos dias, detalhando melhor.

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