Velha demais para isso… será?!!

Falando um pouco mais sobre a busca de um propósito na vida, tenho ouvido muitas pessoas lamentarem que já estão velhas para investirem em seus sonhos, que agora é tarde demais. Geralmente são pessoas que estão na faixa dos 40 a 50 anos e que se percebem em um ponto da vida profissional em que há pouca perspectiva de mudança. Entrar em um novo mercado e competir como os mais jovens para eles é impensável. Os poucos que desafiam esta lógica acabam se tornando exceções heroicas, que, muitas vezes, ganham destaque em matérias na mídia, reforçando o caráter de excepcionalidade de suas ações.

Há aproximadamente dez anos, participei de um curso com Joel Dutra, uma referência no Brasil em gestão de pessoas, no qual ele apresentava dados que indicavam um movimento interessante. Como saímos muito jovens da faculdade e começamos a investir em nossa carreira por volta dos 20 anos, quando chegamos aos 40, duas décadas depois, já temos muito conhecimento e experiência em nosso campo de atuação e, muitas vezes, nos sentimos pouco desafiados e desmotivados. É o momento em que muitos fazem a mudança na carreira, voltando a atenção para antigos projetos juvenis que insistem em nos cutucar de vez em quando. Geralmente surgem novos hobbies ou o investimento em serviços voluntários. Contudo, em meu círculo de convivência, poucas vezes vi este movimento se concretizar em uma verdadeira mudança de carreira, em um recomeçar do zero e partir para o desbravamento de um mundo novo.

Em um contexto de um país economicamente instável e vivenciando crises sucessivas, fica realmente difícil ousar um pouco mais. E é mais sensato fazer mudanças graduais na esfera profissional ou investir na realização de sonhos por meio de hobbies ou de projetos paralelos. A forma não é o mais importante. O que interessa é se mover, voltar a sonhar e transformar os sonhos em ações. Parar de se queixar e começar a transformar a sua própria realidade.

Para além das questões econômicas que não somos capazes de controlar, há aspectos subjetivos e psicológicos que demandam apenas o nosso esforço para que a mudança seja possível. A reflexão proposta aqui, portanto, é sobre o foco que damos em nossas características individuais. Quando dizemos que estamos “velhos demais para isso”, estamos focando em nossos defeitos (em nossa sociedade a juventude é percebida como um valor em si mesmo a ser perseguido eternamente) e não em nossas forças pessoais. A ditadura da perfeição em que vivemos atualmente, além de nos fazer acreditar que não somos bons o suficiente, ainda mata os nossos sonhos mais genuínos. Se, diante de nossos projetos, pararmos de focar em nossas rugas e cabelos brancos e passarmos a pensar em nossas virtudes, os desafios se tornam combustível de ação e não barreiras intransponíveis.

Quando focamos em nossa imperfeição, em nossos defeitos, estamos focando na escassez, na falta, e não na abundância, nas nossas virtudes e em nossos valores pessoais. Para sermos felizes, além de visualizarmos um propósito e exercermos ações em busca deste objetivo, precisamos acreditar em nós mesmos, no que temos de bom a acrescentar ao mundo e, para isso, precisamos ter a coragem de sermos imperfeitos. A permissão para sermos imperfeitos, além de nos libertar, nos possibilita nos conectarmos também. Ao nos permitirmos demonstrar nossas vulnerabilidade, nossa humanidade, permitimos àqueles que nos rodeiam que façam o mesmo e, assim, nos abrimos a conexões verdadeiras e genuínas, que nos farão crescer juntos. O medo de não sermos aceitos, nos mantém desconectados das demais pessoas, assim como o medo de fracassar é o que nos impede de termos sucesso.

Em vez de ficar se perguntando se você merece ser feliz, ser amado e ter sucesso na vida, dê um voto de confiança a si mesmo, siga em frente, trabalhe duro, saia de sua zona de conforto e depois de um tempo, colha os frutos de seu trabalho. E quando começar a ter uma colheita farta, você passará a acreditar mais em si mesmo e os seus defeitos ou a sua idade não terão mais importância.

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Vania Moraes, psicóloga e life coach

Propósito

Pus o meu sonho num navio 
e o navio em cima do mar;
depois abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho dentro de um navio…
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Pus meu sonho no navio, Cecília Meireles

Este poema é uma descrição precisa do que é uma vida sem propósito. Para alcançarmos desejabilidade social, sermos aquilo que achamos que os outros esperam de nós, afundamos o nosso navio dos sonhos em águas profundas. O resultado? Uma aparente perfeição, uma vida padrão, mas sem sentido, e acompanhada de olhos secos e mãos quebradas.

Por diversos motivos, desistimos de nossos sonhos ao longo da estrada. Escolhemos caminhos profissionais que nos trazem conforto e segurança. E seguimos a vida correndo, estressados, esvaziados.

Ter conforto e segurança é ótimo e todos nós deveríamos tê-los, mas a vida precisa ter sentido, significado. Repito: nossa vida precisa ter propósito, seja ele qual for. Para uns, será a vida nos palcos, representar papéis que ilustram a magia da vida humana. Para outros, a vida adquire sentido ao se pintar um quadro, ao se permitir expor seus sentimentos mais profundos por meio dos pinceis e da arte. Abrir um restaurante e oferecer comidas saudáveis pode ser um grande propósito também.

Tenho conversado com muitas pessoas que conquistaram bons empregos, famílias felizes, possuem qualidade de vida, mas que se sentem vazias, como se tudo estivesse um pouco acinzentado. Viver sem propósito é abrir mão do colorido da vida, é anestesiar-se.

O que faz você brilhar? O que o motiva a superar os desafios, a se tornar melhor a cada dia, a estudar, a treinar, a se aprimorar? Qual a sua vocação?

Ter um propósito nos ajuda, inclusive, a passar por momentos difíceis, a superar perdas, fracassos e decepções.

Mas como descobrir o seu propósito, a sua vocação? Como ter coragem de voltar  a sonhar se não sabemos nem por onde começar?

Um caminho é tentar se conectar com sua criança interior, lembrar das brincadeiras de infância, dos sonhos e aspirações infantis. Essas tenras memórias podem nos reconectar com o que há de mais autêntico e genuíno em nós, pois durante a infância ainda não assimilamos completamente os padrões sociais, ainda não aprendemos a ter medo do futuro e a duvidar de nós mesmos.

Outro caminho é refletir sobre três aspectos importantes da vida e como eles se inter relacionam: sentido (o que eu valorizo, o que é importante para mim?), emoções positivas (o que me gera prazer?) e forças pessoais ou competências (o que eu faço bem feito?).

Uma terceira opção é procurar auxílio de um psicoterapeuta. Alguém que lhe auxilie a mergulhar em mares profundos para resgatar seu navio dos sonhos e que o acompanhe até que você esteja apto novamente a navegar levando consigo o seu coração.

Vania Moraes, psicóloga e life coach