Modelo Hambúrguer de Felicidade

Tal Ben-Shahar, no livro Seja Mais Feliz, apresenta um capítulo inteiro sobre a necessidade de conciliarmos o presente e o futuro. Tenho falado bastante sobre isso por aqui: a nossa felicidade deve ser vista como uma linha temporal contínua, em que vamos pouco a pouco plantando as sementes de uma vida próspera e feliz.

Neste capítulo, Tal nos narra um episódio de sua vida em que estava treinando para um torneio anual de squash. Como parte de seu treinamento, ele havia adotado uma dieta bastante equilibrada  e, por isso, prometeu a si mesmo um prêmio ao final do torneio: um porre de junk food. Assim, quando o torneio acabou, a primeira coisa que Tal fez foi comprar 4 (!!!) hambúrgueres do seu sabor favorito.

Após um mês de restrições, ele iria agora se esbaldar! Contudo, antes de dar a primeira mordida no primeiro hambúrguer, Tal parou e percebeu que ele não queria comer todos aqueles sanduíches de uma vez, pois apesar da privação pela qual passou, ele se sentia bem e saudável. Ele percebeu que uma orgia alimentar não lhe faria bem, não o tornaria mais feliz e satisfeito, pelo contrário.

Foi assim que ele desenvolveu o “modelo hambúrguer” de felicidade, associando um hambúrguer para cada arquétipo de felicidade:

  1. Hedonismo: o primeiro arquétipo/hambúrguer refere àquele a que ele tinha acabado de renunciar, ou seja, o junk food e que está associado ao benefício presente com um dano futuro. Este modelo é o terror das dietas, pois comemos o brigadeiro hoje sem nos lembrarmos do pneuzinho de amanhã!
  2. Rato de laboratório: o segundo arquétipo refere-se ao benefício futuro com um dano presente. Ou seja, seria comer um hambúrguer saudável e insosso. É o que faz o rato de laboratório, quando se priva de algo no presente para alcançar um ganho no futuro.
  3. Niilismo: já pensou comer um hambúrguer sem graça e ainda por cima não saudável? É o que meu amigo César chama de “caloria inútil”: te engordou sem lhe proporcionar nenhum prazer. É o dano presente com um dano futuro. Esse modelo se aplica a alguém que não desfruta o presente sem ter também a noção de objetivo futuro.
  4. Felicidade: que tal um hambúrguer gostoso e saudável? Algo que lhe trará benefício presente e futuro? Esta é a receita da felicidade: atividades prazerosas no presente que também nos trazem satisfação futura.

Esses quatro modelos acima são simplificações teóricas e não pessoas reais, mas eles nos ajudam a entender quais são os modelos de felicidade que estamos empregando em nossas vidas e porque muitas vezes as coisas não estão saindo como esperávamos. No dia a dia, adotamos um pouco de cada um desses modelos, mas tendemos a agir mais de uma forma que de outra.

Alguém que se priva da convivência da família e dos amigos para crescer na carreira, tende a adotar mais o modelo “rato de laboratório”, pois está sacrificando o seu presente em busca de uma satisfação futura. Quem vive uma vida de prazeres imediatos (comida, sexo, drogas, jogos, etc), privilegia o hedonismo e muitas vezes sacrifica o seu futuro, tanto em termos de saúde quando de realização pessoal. Por outro lado, quem deixou de acreditar no significado da vida, seguindo preso às suas crenças limitantes, tende a seguir um modelo mais niilista. Tenho visto pessoas jovens presas a este modelo, sem capacidade de sonhar com o futuro, arrastando-se como se tivesse 200 anos e não 20, 30, 40 ou 60. Por fim, há aqueles que aprenderam a sabedoria da vida: fizeram as pazes com o seu passado, apreciando a beleza do presente e admiram um futuro lindo e repleto de significados.

E você? Em qual modelo de felicidade você está apoiando as suas escolhas de vida?

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Revisitando o passado

Nos dois últimos textos, falamos sobre o presente e o futuro. No futuro é onde alocamos nossos sonhos, nosso propósito de vida, nossos projetos pessoais. No presente, está o prazer da jornada, a necessidade de sermos felizes agora, enquanto caminhamos. Mas tanto o nosso presente quanto o nosso futuro estão intimamente relacionados ao nosso passado, à nossa história de vida e, principalmente, aos significados que atribuímos a tudo o que vivenciamos.

É no passado que construímos as crenças que nos limitam e nos impedem de avançar e de alcançarmos sucesso e realização. Fico pensando sobre onde estaríamos agora se não fossem as âncoras que criamos a partir de nossas crenças… Com certeza nosso barco já teria avançado mais e estaríamos para além do nosso campo de visão atual, em mar aberto.

Criamos nossas crenças limitantes com o objetivo de nos protegermos do sofrimento, para evitarmos que nosso barco fique à deriva. Contudo, para não naufragarmos, mantemos o barco atracado, preso às nossas auto-limitações. De que serve um barco que não navega? E como navegar em alto mar sem correr nenhum risco?

Grande parte de nossas crenças autolimitantes são construídas a partir dos outros, principalmente nossos pais. Herdamos medos, expectativas, desilusões. Também criamos crenças a partir de eventos e dos significados que atrelamos a esses eventos. Se vou mal na prova de matemática é porque “não sou bom com números“. Se minha namorada me troca por outro é porque “não tenho sorte no amor“. Se perco dinheiro em um investimento ruim, é porque “não nasci para ganhar dinheiro“. E por aí vai…

E essas pseudo verdades são repetidas por nós mesmos até se tornarem verdades de fato. Ajustamos nossos comportamentos a essas crenças de forma a não contrariá-las, pois precisamos que elas sejam verdadeiras para que o mundo seja um lugar seguro e previsível para vivermos. Além disso, elas nos mantém em nossa zona de conforto. Para que vamos perder tempo estudando se não temos vocação com números mesmo? Aos poucos vamos reduzindo nossas possibilidades e potencialidades na vida. Vamos acreditando que podemos menos, que merecemos menos, que somos menos.

A boa notícia é que do mesmo jeito que nossas crenças podem nos limitar, elas também podem nos fazer brilhar! Seguindo a mesma lógica, se acreditamos que somos bons nadadores, iremos nadar bem. Se acreditarmos que somos inteligentes, teremos facilidade em aprender. Se nos consideramos esforçados, não vamos desistir facilmente.

E você? Quais são as crenças que estão limitando ou impulsionando a sua vida? Reveja suas verdades e aposte que você pode ir mais além. Se você acreditar que pode ser feliz, você será, pois seus pensamentos e decisões estarão conectados com este propósito de felicidade. Caso tenha dificuldade em descobrir quais são suas crenças, pois geralmente elas estão atreladas a conteúdos inconscientes, ou emocionalmente dolorosos, procure ajuda de um profissional.

O importante é acreditar e seguir em frente. Sempre. Como diriam os Los Hermanos: “Aponta pra fé e rema…”

Vania Moraes, psicóloga e life coach