Conhecendo mais nossas emoções

Este é o primeiro de uma série de textos que irei publicar sobre as emoções. Essas reflexões baseiam-se na obra de Barbara Fredrickson, uma das precursoras da Psicologia Positiva, autora de dois livros (Amor 2.0 e Positivity) e de diversos artigos científicos.

Para entender as emoções e seus impactos sobre a nossa vida cotidiana, a autora apresenta um gráfico que ilustra o funcionamento básico de qualquer emoção, seja ela positiva ou negativa:

Observamos no gráfico acima que, de acordo com a forma como apreendemos um evento, surgem diferentes reações em nosso corpo, que, por sua vez, provocam diversas respostas comportamentais, que vão desde a vontade de não sentir mais aquela emoção novamente até comportamentos para mudar ou repetir aquela sensação corporal.

A partir dessa análise inicial, é possível extrair as seguintes observações sobre o funcionamento das emoções:

  • elas não são etéreas, mas “incorporadas” (embodied), ou seja, elas se manifestam em nosso corpo e envolvem mudanças em nossas sensações, percepções, postura, voz, face, etc.
  • por serem vivenciadas no corpo, elas são transmitidas aos outros, que percebem as nossas alterações corporais. Assim elas não são experiências privadas, mas compartilhadas e se espalham pelo ambiente. Elas tendem a ser contagiantes.
  • as reações corporais e, portanto, as nossas emoções, são decorrentes da forma como interpretamos a realidade e não das circunstâncias reais que vivenciamos. Elas dependem do nosso “mindset“, ou seja, do nosso modo usual de pensar e interpretar a vida e os seus acontecimentos cotidianos.
  • os eventos não precisam ser reais ou externos à nossa mente para despertarem nossas emoções. Uma simples lembrança e a forma como a interpretamos pode provocar raiva, alegria, admiração.
  • as respostas às emoções são diversas e variam de pessoa para pessoa. Há pessoas, inclusive, que se sentem ameaçadas quando sentem emoções positivas.
  • por dependerem da forma como apreendemos os eventos, as emoções sofrem influência da nossa história de vida, da nossa personalidade e da cultura onde estamos inseridos.

Outro aspecto importante que a autora destaca é que as emoções seguem uma espiral: cada emoção sentida em um dado instante afeta as emoções que serão sentidas nos instantes seguintes. Se sentirmos alegria hoje, tendemos a nos sentir mais alegres amanhã.

Dessa forma, podemos observar que, apesar de não termos controle sobre as emoções em si, podemos modificar a forma como interpretamos os acontecimentos, tornando-os, por exemplo, menos ameaçadores. Não podemos ordenar ao nosso coração que não dispare quando sentimos medo, mas podemos diminuir a nossa tendência de sentir medo aos nos sentirmos mais seguros.

Pessoas que sentem medo de falar em público, por exemplo, terão mais facilidade de superar esta dificuldade se em vez de focarem na tentativa de controlar suas reações corporais (tentando parar de tremer, de sentir frio na barriga, de suar), investirem na mudança de percepção da situação (de ameaçadora para desafiadora).

Ao conhecermos mais sobre nossas emoções e reações diante dos acontecimentos, aprendemos mais sobre nós mesmos e sobre como nossa visão de mundo (mais positiva ou mais negativa) influencia a forma como nos sentimos e nos comportamos.

E você, já parou para pensar sobre como você tende a interpretar os acontecimentos?

Vania Moraes, psicóloga e life coach

O livro Amor 2.0 da Barbara Fredrickson está disponível na Amazon: Amor 2.0

Psicologia Positiva não é ser feliz o tempo todo

Sempre que um movimento social começa a ganhar força, logo surgem seus opositores. Com a Psicologia Positiva (PP) não é diferente e à medida que ela cresce e se destaca no Brasil, começam a surgir textos e matérias em oposição, afirmando que a venda da felicidade é falacioso e enganoso, pois incutiria na população uma imposição de um padrão comportamental que conduziria à ansiedade e à frustração.

Barbara Fredrickson, uma das principais referências em PP e pesquisadora das emoções positivas há mais de 20 anos, diz que um conhecimento superficial da PP pode produzir mais malefícios que benefícios, pois pode induzir a uma percepção equivocada da área, que corroborariam as críticas acima apontadas. Foi por isso que escrevi o texto de hoje: para esclarecer e alertar que PP não é sobre ser feliz o tempo todo.

O primeiro ponto, discutido aqui anteriormente no texto Permissão para ser humano, é que somos plurais e todas as emoções que compõem a nossa vida são importantes, sejam elas positivas ou negativas. A raiva, a tristeza, o desgosto, o medo nos acompanham desde a nossa origem pré-história e serviram e ainda servem a nossa sobrevivência individual e como espécie. Além disso, para além de sua função evolucionista, as emoções negativas nos permitem sentir empatia, promover mudanças sociais importantes e nos impulsionam para a ação. E mesmo que elas não fossem cruciais em nossas vidas, a PP não seria ingênua de achar que seria capaz de desenvolver ações e terapêuticas capazes de acabar com a infelicidade. Isso seria charlatanismo.

O que a PP propõe, ao contrário, é acrescentar (e não substituir) o estudo das emoções positivas, do bem estar e da felicidade, das forças pessoais e das virtudes humanas aos tradicionais campos de pesquisa da Psicologia, ampliando-os e não reduzindo-os. A PP também se dispõe a pesquisar formas de aumentar a positividade em nossa vida, ja sabendo de antemão que a negatividade faz parte de nossa condição humana, nos ensinando como viver a vida de forma a favorecer e reforçar as emoções positivas e a diminuir a duração e o impacto das emoções negativas.

Vivemos em um momento em que a PP está na moda, principalmente depois da ascensão do Coaching no Brasil. E isso é muito bom. Contudo, poucas são as pessoas que realmente se preocupam em ter uma formação aprofundada na área e em conhecer essa ciência a fundo. Por isso, muitas vezes a PP soa como algo banal e fantasioso, pois começou a ser propagada de forma superficial e, algumas vezes, equivocada.

Por traz disso, há algumas vezes o interesse mercadológico em vender uma solução rápida para o sofrimento humano. Contudo, não há mágica. Para aprender a ser mais feliz, é necessário um esforço diário para a mudança de hábitos e de padrões mentais arraigados. E o que a PP tem a oferecer são descobertas científicas que nos apontam caminhos simples, práticos e duradouros nessa eterna jornada em direção à felicidade.

Vania Moraes, psicóloga e life coach