Automutilação Sem Ideação Suicida (ASIS)

Hoje o nosso blog irá abranger um tema atual e importante e cada vez mais presente no nosso dia a dia, principalmente entre jovens: Automutilação Sem Ideação Suicida – ASIS (Non-Suicidal Self-Injury – NSSI).

O que é a ASIS? Ela envolve situações em que o indivíduo provoca intencionalmente lesões em seu próprio corpo sem que tenha, com isso, o objetivo de se matar. Além disso, trata-se de lesões que não possuem validação social, diferentemente do que ocorre com tatuagens ou piercings. Geralmente as lesões são provocadas por cortes, mas também podem ocorrer pancadas propositais, queimaduras.

Mas o que leva uma pessoa a se auto mutilar? Geralmente há vários aspectos associados à questão. Um dos principais motivos associados a essa prática é o objetivo de desviar a atenção de uma outra dor, maior ainda, de caráter subjetivo. Assim, a autolesão surge com o intuito de aplacar ou de diminuir uma dor emocional, uma angústia, com a qual a pessoa não consegue lidar. A autolesão, então, é uma tentativa de alívio da dor. Contudo, como não age sobre a causa do problema, a transferência de uma dor subjetiva para uma dor física é momentânea, dura no máximo algumas horas, e ainda pode ser acompanhada por culpa depois.

Outro objetivo associado à autolesão é a autopunição. Nessas situações, ocorre geralmente entre pessoas com baixa autoestima, que se sentem inúteis, um peso para a família ou para a sociedade. A automutilação nessas circunstâncias acontece como uma punição por ser assim.

Pode aparecer em pessoas com Transtorno de Déficit de Atenção, com o objetivo de se perceber no controle da situação e para facilitar o foco em uma atividade. Ocorre ainda como um pedido de ajuda, uma forma de se comunicar que há algo de errado acontecendo. Há aqueles que praticam a autolesão para se mostrarem fortes e desafiadores. Em casos em que a pessoa se sente esvaziada de emoções, apática, pode aparecer como uma tentativa de se sentir real, de se sentir algo, uma emoção. Também pode se associar a casos de bullying e cyberbullying.

Há ainda um efeito de contágio, pois a prática é propagada entre grupos, principalmente por meio do uso de redes sociais. Os grupos de automutilação acabam se tornando um espaço de pertencimento, que ensina a como se auto lesionar, a como disfarçar, e o indivíduo passa a se sentir parte de uma comunidade que compartilha da sua dor.

Em razão de suas características (dificuldade de lidar com sofrimento psíquico, baixa autoestima e existência de grupos de pares que compartilham os mesmos comportamentos), a automutilação tem se tornado cada dia mais comum entre jovens e adolescentes. Os dados epidemiológicos são frágeis, principalmente por se tratar de um tema que gera constrangimento e que é difícil de ser mensurado, mas há a percepção de crescimento pelos profissionais de saúde.

Apesar de não estar associada à ideação suicida, há um grande risco de alguém que pratique ASIS se tornar um suicida potencial (em torno de 25% dos que se mutilam tentam se suicidar posteriormente). Assim, além do prejuízo imediato associado ao dano corporal e ao sofrimento psíquico, há ainda o risco de perda da vida com o agravamento do quadro.

Um baixo repertório emocional para lidar com frustração, somado à imaturidade do cérebro adolescente, que os conduz a praticar atos sem muita reflexão prévia, torna os jovens mais suscetíveis a essas ações. Este comportamento está muito associado à sensação de falta de sentido na vida e ocorre também em situações de distanciamento emocional da família, com sensação de crescente solidão e falta de suporte emocional.

Vivemos um momento de grande desconexão social, que desestimula o contato visual, prejudicando a comunicação não verbal, e as pessoas ficam com a sensação de que o outro não a entende de fato. Além disso, em um ambiente em que somos medidos pelo nosso desempenho, perdemos o direito de sermos e nos sentirmos vulneráveis. Desta forma, as emoções negativas não possuem mais validação social e temos de escondê-las para transmitirmos uma imagem de sucesso e autocontrole. Em todas as mídias, há uma pressão enorme para que sejamos felizes e se não o somos, deve ser porque tem algo de errado com a gente (leia mais sobre esse tema no texto Você não precisa ser feliz).

Uma forma de se aproximar de pessoas que praticam a ASIS é por meio de uma curiosidade respeitosa, em que se reconhece que a ação, por mais estranhamento que ela cause, tem uma razão de ser para quem a pratica. O objetivo é entender como esse comportamento auxilia a pessoa a lidar com seus problemas e, a partir daí, poder ajudá-lo a desenvolver outras formas de manejo das dificuldades pessoais.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Fonte: Dra. Jeniffer Muehlenkamp (EUA) no curso Automutilação Sem Intenção Suicida, promovido pelo Instituto Vita Alere.


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