Comfort food

Você já ouviu falar em comfort food? Comidas conforto ou comidas reconfortantes são aquelas cuja ingestão está associada à promoção de emoções positivas, como alívio, nostalgia, consolo psíquico ou sensação de bem-estar.

Uma de suas principais características é que são geralmente alimentos ricos em açúcares e carboidratos. Dificilmente uma alface ou um rabanete irão desempenhar esse papel reconfortante quando nos sentimos tristes ou estressados. Nessas situações, quando comemos algo que nos traz alívio ou bem-estar, preferimos alimentos mais calóricos e que fazem parte de nossas memórias afetivas.

As comidas conforto, portanto, variam de acordo com a cultura em que estamos inseridos e com nossas histórias pessoais e familiares. Enquanto para um americano o cachorro-quente pode ser facilmente percebido com um comfort food, para um mineiro essa função de reconforto emocional será mais facilmente exercida por um café com leite ou um pão de queijo quentinho.

A comida conforto, portanto, é a comida ou bebida consumida quando se busca uma sensação de alívio, de segurança subjetiva ou uma compensação emocional. As preferências alimentares de conforto são formadas geralmente durante a infância e estão associadas a memórias agradáveis e prazerosas.

Essa relação de resposta emocional à comida não diz respeito ao alimento em si, mas ao que ele representa, aos significados atribuídos a ele no passado e que são socialmente reforçados ao longo da vida. Sem que tenhamos muita consciência dessa relação emocional com a comida, ela acaba influenciando fortemente nossas escolhas e, em um contexto de reeducação alimentar, dificulta a mudança de nossos hábitos alimentares.

O conceito de comfort food é bastante explorado pelo marketing. Muitas propagandas fazem referência a essa relação emocional com a comida e os alimentos são apresentados em contextos sociais em que a troca de afetos é evidente e onde as pessoas aparecem felizes em suas relações sociais.

Contudo, o que a ciência tem descoberto é que o efeito da comfort food é muito mais subjetivo que objetivo, ou seja, efeitos positivos reais sobre o nosso humor são dificilmente comprovados. Ou seja, comemos para nos sentirmos melhores, mas quando pesquisadores medem o humor antes e depois da ingestão de alimentos reconfortantes após situações estressantes ou tristes, não se observa mudança significativa no padrão emocional.

Assim, enquanto a maioria das pessoas acredita que a comida conforto eleva o seu humor, achados empíricos que forneçam suporte a essa crença são difíceis de encontrar. Em razão disso, há publicações sugerindo que a própria noção de comida conforto seria um mito. Se é um mito ou não, não podemos dizer, pois ainda há muitas incertezas que nos impedem de afirmar ou de negar que um alimento reconfortante pode, de fato, oferecer benefícios psicológicos a quem o consome.

Além da dificuldade de se comprovar que determinados alimentos realmente melhoram o nosso humor, há achados que indicam que mulheres, após consumirem comfort food, tendem a se sentir culpadas, provavelmente em razão do alto valor calórico geralmente presente nesses alimentos. Dessa forma, além de dificilmente terem efeitos positivos sobre a nossa saúde emocional, se forem ingeridos com culpa, terão um efeito negativo evidente.

Outras pesquisas indicam também que, enquanto mulheres tendem a fazer uso de comfort food em situações de solidão, depressão ou culpa, o que reforçaria uma espiral negativa no uso desses alimentos, homens tendem a fazer uso de comfort food como recompensa por conquistas pessoais. Esses achados relacionados ao uso do alimento como “prêmio” se contrapõem ao conceito usual de comfort food associado a tentativa de se contrabalançar emoções negativas, pois ele também pode ser utilizado na presença de emoções positivas, para reforçá-las.

Em razão dos achados pouco conclusivos relacionados ao uso da comida para o alívio de emoções negativas, talvez seja interessante, quando nos sentirmos sozinhos, estressados ou tristes, adotar outras estratégias que possam de fato melhorar o nosso humor em vez de atacarmos a caixa de bombom mais próxima (leia aqui dicas de como lidar com o estresse sem descontar na comida).

Ou então, caso você decida fazer uso da comida conforto de forma deliberada, experimente convidar alguém para compartilhar este momento com você, pois, ao contrário da comfort food, as relações afetivas têm comprovadamente efeito positivo sobre o nosso bem-estar e felicidade. Portanto, se for para enfiar o pé na jaca, faça-o em boa companhia! 😉

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Referências:

Spence, C., Comfort food: A review, International Journal of Gastronomy and Food Science 9 (2017) 105-109 (https://doi.org/10.1016/j.ijgfs.2017.07.001)

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