Necessidade de pertencer e isolamento social

Há décadas pesquisas no campo da psicologia indicam que o ser humano precisa se sentir pertencente a um grupo social para se sentir bem. Esta necessidade teria raízes evolutivas, pois teria garantido, no passado, que nos aliássemos e pudéssemos superar as adversidades do ambiente físico que nos circundava e nos ameaçava.

Os estudos sobre a necessidade de pertencer iniciaram na década de 50 e, apesar de terem sido utilizados várias palavras ou expressões para nomear o fenômeno, todos eles fazem referência à necessidade de se conectar com outras pessoas como um aspecto motivacional importante em nossas vidas. O mais popular destes estudos é a pirâmide da hierarquia das necessidades básicas de Maslow, na qual o pertencimento aparece como o terceiro fator motivacional humano.

Em 1995, o tema ganhou bastante destaque com os estudos promovidos por Baumeister & Leary, nos quais os autores propõem, alinhados ao pensamento de Maslow, que a necessidade de pertencimento (need to belong) é um fator motivacional fundamental e inato.

Diante da necessidade de pertencimento, a qualidade de nossos relacionamentos é um fator chave de nossa felicidade, pois a interação positiva com outras pessoas atua como proteção contra inúmeros problemas psicológicos, em particular, a depressão.1

A sensação de pertencimento traz, portanto, diversos benefícios sobre a nossa vida psíquica, tais como o fortalecimento de nossa autoestima e da percepção de autoeficácia. Além disso, conforme dito anteriormente, quem se sente pertencendo a um grupo tende a sofrer menos de depressão, ansiedade e estresse. Há benefícios também sobre a saúde física, com o aumento da imunidade e da longevidade. Pertencer, portanto, é tão importante para a nossa saúde quanto se alimentar bem e se exercitar.

Por outro lado, não se sentir pertencendo, ou seja, quadros de isolamento ou de baixa percepção de suporte social traz vários riscos para a saúde, tais como o aumento da mortalidade, a adoção de comportamentos de risco, adoecimento psíquico e comportamentos de automutilação (ASIS). O não pertencimento também possui impacto futuro e crianças que não foram devidamente inseridas em grupos familiares e sociais durante a infância apresentaram maior risco de doenças cardíacas na vida adulta.

A necessidade de pertencimento, contudo, está mais relacionada à percepção que temos a respeito da qualidade da nossa inserção em grupos sociais significativos do que à participação ativa e efetiva em um desses grupos.

Trata-se, portanto, de uma sensação de pertencer, de ser aceito, de fazer parte. Um jovem, por exemplo, pode ter uma participação ativa em uma sala de aula, mas não se sentir pertencente àquele grupo. Por outro lado, uma pessoa tímida e mais reservada pode se sentir fazendo parte de um grupo, mesmo que não se manifeste muito.

Em um contexto de isolamento social como o que estamos vivenciando atualmente, a sensação de pertencimento pode ser fortalecida por meio de interações virtuais, desde que elas propiciem, de fato, conexão. Para isso, é preciso estar verdadeiramente presente. E presença pressupõe atenção, interação, intenção.

Pertencimento na adolescência

As necessidades de pertencimento presentes desde o início da infância se acentuam durante a adolescência. Aqueles que se sentem pertencentes a um grupo de amigos apresentam mais facilidade na transição para a vida adulta e maior ajuste/adequação psicossocial.

Por outro lado, durante este período em que a necessidade de pertencer é premente, o risco de isolamento social é maior, pois os adolescentes já se distanciaram de seus pais para se aproximarem de seus pares e são mais vulneráveis a experiências sociais negativas. Neste contexto, ter um relacionamento com professores e sentir-se valorizado no ambiente escolar é um fator importante no desenvolvimento do adolescente.

Por passar boa parte de seu tempo no ambiente escolar, o senso de pertencimento a uma escola possui um profundo senso de conexão que irá influenciar comportamentos e pensamentos durante a vida adulta.

Neste sentido, a escola possui um importante papel ao reforçar e valorizar o senso de pertencimento. Nesta etapa da vida, os pais possuem pouca influência e os adolescentes nem sempre encontram suporte social entre outros jovens.

Contudo, atualmente, os adolescentes estão afastados do ambiente escolar real e estão imersos no ambiente virtual durante longos períodos de tempo. É preciso, portanto, que os pais estejam atentos à qualidade destas interações virtuais. Elas estão promovendo conexão ou reforçando ainda mais o isolamento? O jovem está se sentindo pertencente ao grupo familiar, ao grupo de amigos, à turma da escola? Como ele está vivenciando este fenômeno de interação quase que exclusivamente virtual? Quando estas interações ocorrem, elas pressupõem presença ou apenas uma postura passiva e distraída?

O poder da presença

Uma das maiores pesquisadoras sobre a presença é Amy Cuddy, autora do livro O Poder da Presença. Em outro texto, falei um pouco sobre a pesquisa dela sobre posturas de poder. Aqui vou escrever sobre outro aspecto apresentado no livro: a presença, aspecto fundamental para minimizar o isolamento social por meio das interações virtuais.

A presença é algo que é sentido e percebido enquanto nos relacionamos. Conseguimos nos sentir presentes e conseguimos saber se aqueles com os quais nos relacionamos estão presentes também. E como se dá a manifestação da presença? Por meio, principalmente, da comunicação não verbal, como a nossa voz, as nossas expressões faciais, a direção do nosso olhar, os nossos gestos e as nossas posturas.

A presença também pressupõe coerência entre o que dizemos e aquilo que pensamos, nossos valores e crenças. Para estarmos presentes, além de estarmos verdadeiramente interessados na conexão, na interação, no que o outro tem a dizer, temos de acreditar naquilo que dizemos, sermos sinceros. E para isso, é preciso estar disposto a estar vulnerável a ponto de expressar-se verdadeiramente. É preciso também acreditar em suas habilidades e capacidades e querer expressá-las. Presença, portanto, é antes de tudo, aceitar-se e aceitar o outro, sendo capazes de sermos nós mesmos e permitindo que o outro também se mostre tal como é.

Vania Moraes – Psicóloga

Você pode ler mais sobre o papel dos relacionamentos positivos nestes dois textos sobre os componentes da felicidade e do bem-estar: Os cinco princípios da felicidade e Os cinco elementos essenciais do bem-estar.

Referências:

  1. Allen K.; KernFisher e Robinson (2009), em Seligman, M. e Rashid, T, (2019) Psicologia Positiva, o Manual do Terapeuta (cap. 18). Relações positivas.
  2. M.L. (2017) School Belonging in Adolescents. Theory, Research and Practice (cap. 2). The need to belong. Ed. Springer Singapore