Psicologia e Pandemia

Esta semana inicio uma série de post sobre Psicologia e Pandemia. Nos primeiros, serão abordados os aspectos comportamentais e emocionais que nos impactam negativamente durante este período. Nos demais, abordarei estratégias de enfrentamento dessas dificuldades. O objetivo é entendermos melhor o que estamos vivenciando e, em seguida, avaliarmos quais são os comportamentos que podemos adotar no nosso dia a dia para nos sentirmos melhor.

Um aspecto que considero primordial para refletirmos sobre a pandemia, é a noção de que há uma tríade formada pela nossa compreensão de ser/ter/fazer. Ao longo da história da humanidade, cada uma dessas dimensões do nosso psiquismo assume protagonismo. Houve períodos em que estivemos mais preocupados com o ser, um imperativo existencial que limitava o nosso pertencimento a determinados grupos. Éramos reis ou vassalos, nobres ou burgueses, escravos ou donos de escravos. O nosso ser era determinado pelo nosso pertencimento a determinado grupo social e delimitava o que fazíamos e o que tínhamos.

A flexibilização do acesso aos bens de consumo e as novas formas de pertencimento social levou-nos ao imperativo do ter. Passamos a ser medidos pelas coisas que nós tínhamos (ou temos). A medida da felicidade passou a ser a conta bancária. Quem tivesse mais supostamente seria mais feliz. Milhares de estudos, e até a nossa vida prática, refutaram esta ideologia, apesar de muitos de nós ainda estarmos apaixonados por esta ilusão.

Para ter acesso aos bens de consumo, passamos a fazer cada vez mais, sendo, muitas vezes, engolidos pela sociedade do desempenho na qual estamos inseridos. Trabalhamos cada vez mais, para termos cada vez mais (será?). O fazer, associado às possibilidades de ter, passou a ser um imperativo também. Acreditamos que quanto melhor o nosso desempenho em nosso campo de atuação, maiores seriam as recompensas. E fazemos cada vez mais, mesmo que isso nos custe a nossa saúde, a convivência com a família, os momentos de descanso ou de relaxamento.

O ser sob esta perspectiva fica submetido então à lógica do ter-fazer. Não há, portanto, muito espaço para sermos algo além do que temos e fazemos.

A pandemia, contudo, nos tirou muitas das possibilidades de ter/fazer, principalmente de fazer. Nossos espaços de circulação foram limitados, a convivência com as pessoas foi minimizada e o nosso fazer diário passou por uma revolução. Tivemos de aprender rapidamente a fazermos as coisas de uma forma diferente, gostando ou não.

Este cenário, portanto, nos convidou a refletirmos sobre o que somos para além do que fazemos e do que temos (Escrevi mais sobre este “convite” em um post anterior disponível aqui). Diante dos limites impostos pelo vírus, muitos de nós nos voltamos para dentro de nós mesmos para vermos o que resta quando corremos o risco de adoecermos e de perdermos pessoas queridas, quando não podemos mais ir e vir da forma como fazíamos antes, quando nossas possibilidades de consumo foram limitadas, quando os nossos familiares e amigos passaram a ficar mais distantes, quando vemos nossa fonte de renda ameaçada.

Para mim, ao olhar para dentro, o que encontrei foi o meu verdadeiro ser, para além do que eu faço ou do que eu tenho. E hoje me apresentou a vocês: sou neta de João e Rosilda, José e Ana. Sou filha de José e Onice. Irmã de Paulo e Raquel. Sou esposa de Ramon. Mãe de Lucas e Gabriel. Sou psicóloga também, pois além do fazer psicológico, a psicologia já é em mim uma forma de ser.

E você, o que é?

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