Psicologia e Pandemia – Os estudos visionários de Steven Taylor

Dando continuidade a série, chegamos ao terceiro post sobre Psicologia e pandemia.

Dois meses antes do covid-19 começar a ser noticiado e atingir proporções mundiais, Steven Taylor, psicólogo PhD e professor da University of British Columbia, Canadá, lançou o livro The psychology of Pandemics (A psicologia de pandemias, tradução livre). Nesse livro, que ele começou a escrever em 2017, Taylor condensa dois anos de pesquisa sobre comportamento humano durante pandemias.

Ao analisar como nos comportamos durante grandes surtos de doenças que afetaram a humanidade em séculos passados, tais como a gripe espanhola e a peste bubônica, e ao notar que infectologistas do mundo inteiro anunciavam que uma nova pandemia estaria por vir nos próximos anos, Taylor percebeu que era preciso entender melhor a psicologia por traz das pandemias. Em seus estudos, ele constatou que a psicologia desempenha papel fundamental na disseminação e na contenção de infecções, e também na compreensão do impacto emocional sobre as pessoas.

Veja a seguir os principais achados de Taylor, com meus comentários. Observe que nossos comportamentos em pandemias anteriores são os mesmos de agora:

  • O combate ao vírus pressupõe mudanças de comportamento. Para que isso ocorra dois aspectos precisam estar presentes: confiança e liderança. Se as pessoas não confiarem em seus líderes ou nas autoridades sanitárias, elas não farão o que eles pedirem ou orientarem.
  • Para que as pessoas confiem que as mudanças de comportamento são importantes e necessárias, elas precisam receber informações precisas, em tempo hábil, de forma transparente e é preciso que as autoridades sanitárias reconheçam incertezas. Ou seja, autoridades precisam se permitir não saber e que os outros também não saibam. Ao admitirem o que sabem e o que não sabem ainda, fica mais fácil conquistar a confiança da população.
  • Para que haja liderança, é preciso exemplo e coerência. Vivenciamos uma crise mundial e local de ausência de liderança no combate ao covid-19. Era esperado no início da pandemia que os EUA assumissem uma posição de liderança global, mas isso não foi observado. Ao mesmo tempo, nenhum outro país do mundo quis assumir este papel. O mesmo fenômeno foi observado no Brasil. Houve iniciativas locais, mas pouco protagonismo federal. Yuval Noah Harari explica melhor esta questão de ausência de liderança no ensaio “Na batalha contra o coronavírus, faltam líderes à humanidade“, publicado pela Companhia das Letras.
  • Diante do cenário de incerteza, alguns comportamentos negativos emergem ou se agravam: racismo (observamos comentários xenofóbicos em relação aos chineses e a crise desencadeada pelo assassinato de George Floyd), ansiedade relacionada à saúde (antigamente conhecida por hipocondria), compras motivadas por pânico (como os estoques de papel higiênico, álcool gel, entre outros), teorias da conspiração (vacinas que disseminam vírus ou modificam o DNA) e ansiedade antecipatória.
  • As compras motivadas por pânico parecem ser o resultado de dois fenômenos: medo da escassez, que pode estar fundamentado em uma escassez real de produtos ou na perda de renda, e o efeito manada: ao vermos as pessoas correndo para os mercados no início da pandemia, nos questionamos se não deveríamos estar fazendo o mesmo (saiba mais sobre o efeito manada aqui).
  • A ansiedade antecipatória é de onde decorre boa parte do nosso sofrimento. Vivemos diversas incertezas em relação à nossa existência e de nossa família ou de pessoas mais próximas e também em nível mais amplo, englobando toda a humanidade. Segundo o psiquiatra Rodrigo Martins Leite (https://rodrigomartinsleite.com.br/), nossa geração nunca havia vivenciado guerras ou crises globais desta magnitude. Foi a primeira vez em que entramos em contato com uma ameaça deste porte. Vivíamos em um cenário de certa previsibilidade, planejamento e controle do ambiente. Estávamos vivenciando a ilusão da estabilidade. Agora temos de conviver diariamente com as incertezas e a imprevisibilidade, o que aumenta muito a nossa sensação de vulnerabilidade, a percepção de que não dispomos de muitos recursos reais ou subjetivos para enfrentar a situação e, consequentemente, a ansiedade e o medo aumentam consideravelmente. A pandemia representou e ainda representa para nós um trauma psíquico e emocional coletivo.
  • Nas pandemias anteriores, houve hesitação em relação às vacinas. Observamos o mesmo agora, mas em uma escala muito pequena. A grande maioria das pessoas percebem que as vacinas são a saída para a pandemia.
  • A boa notícia é que, assim como ocorreu no passado, durante a pandemia houve aumento da solidariedade e da ajuda mútua. Ao contrário das previsões hollywoodianas, os comportamentos de tumultos e conflitos sociais também foram raros. A humanidade também demonstrou resiliência e força. Apesar de todo o sofrimento e perdas, estamos resistindo.

“A história nos ensinou que as pessoas são resilientes, as pessoas são fortes. Nós não gostamos dessa situação, estamos estressados com essa pandemia, mas ela vai acabar e vamos passar por isso.” Steven Taylor

Os textos anteriores sobre o assunto estão disponíveis aqui e aqui.

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