Psicologia e Pandemia – Estratégias de enfrentamento

Existem várias estratégias que podem ser adotadas para enfrentarmos ou minimizarmos sofrimentos decorrentes da pandemia. No texto anterior, dei algumas dicas de como lidar com crianças e adolescentes em casa. Neste post e no próximo irei falar sobre estratégias de enfrentamento mais voltadas para o público adulto.

Um ponto importante para se pensar em melhoria da nosso bem-estar é identificarmos de onde vem a nossa angústia:

Há problemas emocionais preexistentes? Faço parte do grupo de risco? Adoeci ou perdi pessoas queridas? Qual o grau de isolamento em que tenho vivido? Percebo que tenho suporte social e que há pessoas com as quais posso contar? Estou passando por dificuldades econômicas? Vivo em meio a um excesso de informações ou de desinformação?

Outro ponto importante é observar em que fase do luto você está. Elisabeth Kübler-Ross foi a autora que pesquisou luto e identificou as fases pelas quais as pessoas passam ao ter de lidar com perdas. E a pandemia nos trouxe muitas perdas: perdas de pessoas queridas, perda da sensação de segurança, perda da nossa liberdade, perdas econômicas, perda de privacidade… e ao lidarmos com perdas passamos por 6 etapas (não necessariamente nesta ordem):

  • Negação: nessa fase nos negamos a acreditar no que está acontecendo e evitamos entrar em contato com a realidade. “É apenas uma gripe”. ” Eu conheço bem meus amigos e sei que eles não estão doentes, então podemos nos encontrar”.
  • Raiva: nessa fase nos revoltamos, nos sentimos injustiçados e não nos conformamos. Já não negamos o que está acontecendo, mas não percebemos possibilidades de reverter ou alterar a situação. “Meu vizinho não usa máscaras e eu aqui preso dentro de casa”.
  • Barganha: nessa fase, negociamos conosco mesmos. É uma tentativa de aliviar a dor, de nos sentirmos protegidos contra o sofrimento e de ponderarmos possíveis soluções. Se formos religiosos, nossas negociações envolvem Deus. “Se eu ficar alguns dias em quarentena não irei me contaminar”. “Se eu usar a máscara, não corro riscos”.
  • Tristeza: nessa fase nos voltamos para o nosso mundo interno, nos isolamos mais e nos consideramos impotentes para lidar com o sofrimento. Pode ser a fase mais duradoura. “Está tudo muito difícil”.
  • Aceitação. “Estamos passando por um período difícil. Há um grande risco de nos contaminarmos. Então vamos ver qual a melhor forma de lidar com isso”. Trata-se do desenvolvimento da resiliência. Irei abordar este tema com mais detalhes posteriormente.
  • Sentido. Esta última fase foi mapeada por David Kessler, discípulo de Elisabeth Kübler-Ross, e pressupõe a criação de um significado para o que estamos vivenciando. Também irei falar mais detalhadamente sobre isso posteriormente.

Essas fases não são fixas e elas podem ir se repetindo e se alterando à medida em que a pandemia se prolonga. E passar por elas é normal e todos nós estamos passando. E aí chegamos a mais uma estratégia: identificar as emoções desagradáveis que estamos sentindo e nos conectarmos com elas, nos permitindo ser humanos (leia mais sobre isso aqui).

Estamos acostumados a associar nossas emoções desagradáveis a julgamentos. David Kessler apresenta um ótimo exemplo disso em uma entrevista para a Harvard Business Review (acesse o artigo aqui). Ele diz que quando afirmamos algo do tipo: “Eu estou triste, mas eu não deveria estar, pois existem pessoas em situação pior”, nós deveríamos parar na primeira oração, no primeiro sentimento: “Eu estou triste.” Em seguida é importante reservar um tempo para sentir sua tristeza. Se nos permitimos sentir tristeza, raiva, medo ou quaisquer outras emoções por 5 minutinhos que sejam, elas irão ocorrer de forma saudável em nossas vidas e isso irá nos fortalecer.

Além do julgamento sobre a legitimidade de nossas emoções, também tendemos a associá-las a uma espécie de fracasso, como se houvesse algo errado conosco quando sentimos medo, tristeza ou raiva. Temos de estar sempre bem, felizes, realizados e com sucesso em todas as esferas de nossa vida. Nos conectarmos com as nossas emoções e fragilidades expõe a nossa vulnerabilidade e não estamos acostumados a isso.

Outra ideia comum é a de que seremos “sequestrados” pelas emoções. Realmente ocorrem situações em que a amígdala assume o comando de nosso cérebro e as demais funções ficam em segundo plano, mas isso não acontece sempre, quando acontece leva no máximo alguns minutinhos e dificilmente perdemos todo o controle de nossas ações. E conhecermos as nossas emoções e nos conectarmos com elas reduz a chance de isso ocorrer e não o contrário.

Também confundimos emoções com comportamentos (sentir raiva e dar um soco em alguém são processos muito diferentes) ou com doença mental (tristeza e depressão não são a mesma coisa). As emoções básicas possuem registros fisiológicos característicos e expressões faciais associadas a elas. Além disso, ao contrário dos comportamentos, elas não são passíveis de controle. Quando nos tornamos conscientes das emoções, elas já estão presentes e manifestas. Já os comportamentos associados às emoções são inúmeros e podem, inclusive, ter o objetivo de mascarar o que estamos sentido. No caso das doenças mentais, há um grupo de transtornos chamados de transtornos de humor. Nestes quadros, ocorre uma grave desregulação da emoção e o problema em si não é a emoção, mas outros aspectos que impulsionam ou causam tal desregulação.

As emoções negativas possuem uma função evolutiva importante, são responsáveis pela nossa sobrevivência no aqui e agora e ainda nos capacitam a sentirmos empatia, além de servirem de motivação para a ação e para a promoção de mudanças sociais importantes.

Outra estratégia importante é promover as emoções positivas, agradáveis. Quanto mais emoções positivas sentimos, maior o nosso bem-estar, nossa resiliência, nosso repertório comportamental, nossas habilidades de sobrevivência no futuro (crescimento e desenvolvimento pessoais) e maior o nosso mindset de crescimento e de abertura ao novo. Algumas formas de aumentarmos a presença das emoções positivas em nossa vida é por meio da interpretação que damos aos eventos, transformando as ameaças em desafios. Outro comportamento importante é focar o positivo e registrá-lo por meio, por exemplo, de um diário da gratidão. Outro aspecto importante é priorizarmos atividades positivas, prazerosas, interessantes, que irão promover as emoções agradáveis.

No próximo texto irei falar sobre a fase do luto chamada de aceitação e como podemos desenvolver a nossa resiliência para lidarmos com as perdas e dificuldades em nossas vidas.

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