Como reduzir o tempo que seus filhos passam diante das telas?

Muitos pais com quem tenho conversado compartilham uma preocupação comum: como reduzir o tempo que as crianças e os adolescentes passam diante das telas durante e após a pandemia?

Todas as referências de tempo de exposição de tela que serviam para profissionais de saúde e pais caíram por terra diante da necessidade de confinamento. Para todos nós, crianças, adolescentes, adultos e idosos, houve um aumento significativo do tempo em que passamos diante de celulares, computadores, televisores, etc. Não se trata mais de preferências, mas de necessidades e urgências. E o que fazer diante desta nova realidade?

Em um artigo da Psychology Today: How Do We Get Our Kids off of Screens After the Pandemic? o psicólogo norte-americano e PhD Mike Brooks apresenta algumas sugestões interessantes, mas o ponto mais importante apontado por ele é: o foco principal da atuação dos pais deve ser o fortalecimento do relacionamento com os filhos e não o controle das telas. Além disso, o autor defende que as telas não são vilãs. Pelo contrário, durante a pandemia, elas permitiram que muitos trabalhos continuassem sendo realizados, que relações sociais fossem mantidas e que o aprendizado, bem ou mal, fosse mantido.

Além disso, ele defende a ideia de que as telas trazem malefícios às crianças e aos adultos no curto prazo, mas afetam muito a satisfação geral com a vida no longo prazo. Em relação a este aspecto, tendo a discordar um pouco do autor, pois ele fala aqui de forma abrangente, considerando estudos em que a média ou grande parte das pessoas não sofreram prejuízo a longo prazo. Contudo, é preciso ter cuidado, pois existe o comportamento da média das pessoas e existe o indivíduo com as suas particularidades e suscetibilidades. Existem problemas e transtornos que podem estar associados ao uso de telas ou a uma imersão problemática no mundo virtual e essas situações causam muito sofrimento, mas não é o foco do texto de hoje.

Vou destacar meus pontos de concordância com os aspectos discutidos no artigo, apresentando as propostas do autor e discorrendo sobre elas a partir do meu ponto de vista e experiência como mãe e como psicóloga:

  1. Você realmente precisa tirar seus filhos das telas? Uma questão importante apresentada pelo autor em relação a isso é a oposição entre o ideal de parentalidade, que muitas vezes carregamos, mesmo que de forma inconsciente, e a parentalidade boa o suficiente (sempre lembro dos textos da Melaine Klein a respeito da mãe suficientemente boa quando me deparo com reflexões sobre ser boa/bom o suficiente).

Se você ainda está tentando ser um pai ou uma mãe perfeito/perfeita, por favor desista agora. Seus filhos não precisam de pais perfeitos, mas de pais bons o suficiente. Da mesma forma que você não precisa e não terá filhos perfeitos, seus filhos também não precisam de pais preocupados com um ideal inatingível. Utilize as suas dificuldades como ensinamento de vida para eles. Permita-se ser e mostrar-se vulnerável e falho e eles aprenderão que podem ser vulneráveis também e que podem conversar com você sobre isso.

Então se você quer tirar seus filhos da tela ou diminuir o tempo de exposição porque isto é certo a ser feito, volte duas casas. Às vezes as telas garantem a sobrevivência ou a saúde mental dos pais. Simples assim.

Então, o que você deve avaliar não é simplesmente uma questão numérica relacionada à quantidade de horas que seus filhos passam diante das telas, mas todas as outras coisas que ele faz ou deveria estar fazendo fora do mundo virtual. Eles estão dormindo uma quantidade suficiente de horas? Eles estão praticando alguma forma de atividade física? Estão tomando sol e tendo contato com a natureza? Estão tendo bons resultados acadêmicos? Estão conseguindo manter as amizades online? (Alguns pacientes adolescentes têm se queixado que as amizades “esfriaram” neste período. Você adulto deve ter observado o mesmo em relação às suas próprias amizades).

Se você respondeu não a alguma ou algumas destas questões, priorize a mudança destes comportamentos antes de simplesmente proibir alguma coisa. Adolescentes, principalmente, não lidam bem com proibições e todos nós sabemos que o proibido passa a ser mais desejado.

Outra questão que você deve observar, é como o seu filho fica depois de X horas diante da tela. O próprio comportamento das crianças já indica a hora de mudar de atividade. Observe seus filhos. Eles precisam de pausas maiores entre as telas? Ficam muito agitados após jogos de videogame? Há desenhos, séries ou filmes que provocam maior mudança de comportamento? Se sim, converse com eles sobre isso e os ensine a se tornarem conscientes de suas próprias emoções e reações diante das telas. Troque a proibição pelo aprendizado. Em breve eles caminharão com as próprias pernas e precisam saber o que faz bem e o que não faz bem para eles e como lidar com isso. As telas são uma realidade crescente na nossa vida moderna e não há como fugir disso.

2. Priorize a relação. Mike Brooks apresenta uma fórmula ótima para ilustrar a importância da relação entre pais e filhos: Regras sem relacionamento = Rebelião. Em algum momento você conseguiu de fato controlar o comportamento do seu filho?

Então. É isso.

A gente não controla (acho que nem se amarrar no pé da mesa), a gente influencia, principalmente por meio do diálogo e do exemplo. Se você acha realmente que controla, releia a fórmula de Brooks: você está fomentando uma rebelião em seu próprio lar. Enquanto eles são mais novinhos a ilusão de controle é maior, mas depois tudo tende desandar.

A base de tudo está no relacionamento que construímos com eles. Ficar o tempo todo brigando e em conflito não faz bem para nenhuma relação. Negocie, converse, converse de novo, se mostre disponível e ouça muito. Exponha suas preocupações sem alarmismos, indique quais são os efeitos de se ficar muito tempo parado, sentado ou deitado, imerso nas redes sociais ou nos jogos. Oriente sobre riscos envolvendo a internet (ciberbullying, sextorção, sexting, pedofilia, etc), adaptando à idade e à maturidade do seu filho. Ressalte muitas vezes que a vida que eles vêm por lá é mediada por filtros, por escolhas de postagens, que a vida do outro não é tão diferente da dele. Converse muito: exponha o que você sabe e, principalmente, ouça.

3. Prepare as atividades de substituição. As telas são momentos de recreação para todos nós: mensagens de texto, mídias sociais, vídeos no Youtube ou Netflix, jogos. Antes da pandemia, boa parte do nosso lazer já havia migrado para o mundo virtual. Com o isolamento, isso aumentou muito. Se você quer que seu filho diminua o tempo de tela, é importante incentivar outras formas de lazer.

Você consegue identificar atividades de lazer para você fora das telas? Algumas vezes é difícil, né? Para eles é ainda mais. Eles têm menos autonomia, menos vivências fora da tela e não possuem a lembrança de uma infância e de uma adolescência pré-internet como nós temos. Ajude-os a descobrir atividades prazerosas fora do celular ou do computador. Quais são as necessidades que eles possuem? E quais atividades podem atender a essas necessidades?

Estimule atividades ao ar livre, como jogos, esportes, passeios. Há muitos lugares sem aglomeração. Aproveite e promova atividades em família. Se ele ou ela tem um amigo ou amiga que tem um comportamento de maior cuidado e prevenção, que tal promover um encontro de verdade? Um piquenique, um jogo, um passeio de bicicleta, um bate papo cara a cara (usando máscara e adotando uma distância segura) fará toda a diferença para quem está a tanto tempo confinado.

4. Foque no longo prazo. À medida em que a pandemia for controlada pela vacinação em massa, a tendência é que seus filhos retomem as atividades usuais que eles praticavam antes ou até mesmo descubram novos interesses. Incentive isso. Muito. Algumas crianças mais velhas e adolescentes estão inseguros em relação ao retorno ao ensino presencial ou à convivência direta com os pares. Acolha as inseguranças deles e os incentive a retomar a vida presencial assim que for possível. Quanto mais interesse eles tiverem no mundo real menor tende a ser o interesse no mundo virtual.

O foco no longo prazo também ajuda a reduzir a ansiedade. Ainda temos um longo caminho pela frente, mas as perspectivas são de que aos poucos iremos retomar muitas coisas.

5. Resolva os problemas de forma colaborativa. Lembra do foco na relação? Para que haja uma relação saudável, as duas partes precisam ser ouvidas. Não se trata de transferir a responsabilidade pelas decisões para os menores, mas de aproveitar estes desafios para ensiná-los a desenvolverem pensamento de solução de problemas e habilidades de comunicação e de relacionamento. Às vezes eu coloco a seguinte questão para os meus filhos: “ok, temos este problema. O que vocês sugerem que a gente faça de forma diferente para solucioná-lo?” As respostas são ótimas. Aprendo muito.

Nem sempre a gente tem disponibilidade emocional e de tempo para parar e conversar e negociar o tempo todo. Ok. Nós somos humanos e estamos todos neste barco covidiano e tem sido difícil e desgastante. Mas experimente fazer isso de vez em quando e veja que riqueza é a experiência de fomentar o raciocínio criativo e de solução de problemas nos nossos filhos.

Observe o comportamento deles e converse sobre isso, sem críticas ou julgamento. Questione qual é a percepção deles e como eles se sentem em relação a isso. Informe, mais uma vez sem alarmismos, compartilhe suas percepções e ouça muito. No final, peça que eles façam sugestões de como lidar com a questão de uma forma que diminua eventuais prejuízos. Negocie e no final estabeleçam, juntos, as regras ou combinados. É claro que os combinados não serão seguidos à risca todos os dias. Mas o mais importante eles já estarão aprendendo: aprendendo a observar as suas emoções e comportamentos diante dos estímulos, aprendendo que mesmo as coisas mais prazerosas e divertidas cansam e que exigem limites, aprendendo a seguirem os combinados que eles mesmo ajudaram a construir… Tudo isso não é muito mais importante que estabelecer um limite arbitrário de X horas de telas?

Quanto mais nova a criança, mais a regra deve vir de fora para dentro e a margem de negociação é menor. À medida em que eles crescem, as regras vão sendo internalizadas, questionadas e negociadas. E se prepare, pois as negociações tornam-se cada vez mais desafiadoras, pois eles são muito inteligentes e perspicazes, não são?

Atenção! Estas são orientações gerais que priorizam o relacionamento construtivo entre pais e filhos. Contudo se você está achando que está havendo exageros ou prejuízos significativos envolvidos com o uso de telas ou de redes sociais em sua família, talvez seja necessária ajuda profissional.

Vania Moraes | Psicoterapia, Hipnose e Constelação Familiar

Mike Brooks é autor do site Dr. Mike Brooks (www.drmikebrooks.com) e do livro Tech Generation – Raising balancing kids in a hyper-connected world, em parceria com PhD John Lasser.

Uma resposta para “Como reduzir o tempo que seus filhos passam diante das telas?”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s