Quanto tempo crianças e adolescentes podem passar diante das telas?

O primeiro ponto de preocupação é em relação ao conteúdo. Conteúdo de pedofilia, por exemplo, não admite 1 minuto de visualização. Este é um caso extremo, mas serve para ilustrar a importância que o conteúdo visualizado tem em relação ao tempo de exposição.

Conteúdos inadequados para determinadas faixas etárias podem ser sinalizados pela classificação indicativa, mas em muitos casos isso não funciona. No YouTube, por exemplo, não existem faixas de classificação que sinalizem aos pais o que as crianças ou adolescentes encontrarão em cada vídeo.

Existe também o YT Kids (versão infantil do YouTube). Ele permite a criação de perfis para crianças diferentes e a seleção de canais que não serão exibidos. Os conteúdos são classificados em Pré-escolar (até 4 anos), Crianças menores (de 5 a 7 anos) e Criança maiores (de 8 a 12 anos) ou podem ser customizados pelos pais. Mas na prática eu observo que o aplicativo só atende aos interesses dos mais novos. A partir de uma certa idade a criança começa a ficar maravilhada com as infinitas possibilidades do YouTube e de outras mídias como o TikTok.

Além da classificação etária, há outra questão: conteúdos de classificação livre são sempre adequados? Quais os valores que determinados desenhos, séries ou programas ensinam? A maioria dos desenhos, por exemplo, utiliza a violência como forma de resolução de conflitos e ensinam às crianças que os “maus” merecem apanhar. Isto é incoerente com as nossas regras de conduta. Como ensinar a uma criança pequena que ela não pode bater no amigo que pegou o brinquedo dela se ela assiste ao seu herói batendo nos bandidos para combater o crime?

O objetivo não é demonizar determinados personagens ou histórias, mas promover uma reflexão de que até filmes ou vídeos apropriados para determinadas faixas etárias podem ter conteúdos que você considere inapropriado para os seus filhos assistirem.
Por trás dos conteúdos que assistimos, existem uma infinidade de valores sendo transmitidos. Eles são compatíveis com os valores de sua família?

Quando é o vilão que se comporta mal, é mais fácil de eles assimilarem que ele estava fazendo uma coisa errada. Mas muitas vezes são os heróis que adotam posturas que não são muito positivas ou compatíveis com os valores da família e aí temos a oportunidade de ensinar que mesmo as pessoas boas não se comportam sempre de forma boa e que estamos todos aqui para aprendermos juntos e nos tornarmos pessoas melhores.

Você pode não ver problema em que seus filhos assistam a conteúdos negativos já que você os assistiu, assim como eu, e nos tornamos cidadãos de bem. Mas então lanço aqui a reflexão: que visão de mundo os jovens podem estar construindo a partir do conteúdo a que eles têm acesso nas mídias sociais? E quais são os conteúdos voltados para a construção do mundo que queremos ver no futuro e que deveriam estar sendo apresentados às crianças e aos adolescentes de agora? E como aproveitar a exposição à conteúdos negativos para fomentar o desenvolvimento de valores e de virtudes em nossos filhos?

Pare para assistir ao que seus filhos assistem e observem quais são os valores que estão sendo transmitidos. Muito diálogo é necessário para explicar que os comportamentos visualizados nos vídeos muitas vezes não são exemplos de conduta.

Contudo, para além da questão do conteúdo, que considero a mais importante, trago aqui reflexões interessantes apresentadas pelo psicólogo Mike Brooks (apresento algumas ideias dele em um texto anterior disponível aqui. Ele apresenta duas questões importantes relacionadas às pesquisas envolvendo o tempo de tela.

A primeira delas é que as pesquisas são correlacionais. Ou seja, várias medidas são obtidas (tempo de exposição a telas, depressão, ansiedade, horas de sono, desempenho escolar etc.) e correlacionadas sem, contudo, serem estabelecidas relações causais entre elas.
Quando pesquisadores encontram resultados que indicam que adolescentes que passam mais tempo em tela são mais deprimidos é difícil afirmar se foi o tempo excessivo de telas que agravou o humor depressivo ou se foi a depressão que gerou uma busca maior por atividades virtuais ou, ainda, se são comportamentos e padrões que são retroalimentam.

Ele traz o exemplo também da privação de sono: o uso excessivo de telas provoca dificuldades para dormir ou as dificuldades para dormir causadas por outras questões (tais como ansiedade, depressão, bipolaridade etc) levam a um tempo maior de telas? Existem estudos sobre os efeitos das telas azuis sobre o nosso cérebro e a produção de melatonina, mas os problemas relacionados ao sono são muito complexos e multicausais.

Outro problema apontado pelo autor é que as medidas de tempo de tela utilizadas nas pesquisas são autodeclaradas e, portanto, são medidas subjetivas a respeito do comportamento passado. Há pesquisas indicando que este tempo autodeclarado tende a ser menor que o tempo registrado pelos próprios aplicativos, pois as nossas medidas de tempo são subjetivas e falhas. Para o autor, isto invalidaria boa parte dos resultados, pois eles se baseariam em dados pouco confiáveis.

Diferentemente do autor, eu tendo a ser mais conversadora ao interpretar resultados de pesquisas quanto ao tempo de tela dos nossos filhos. Considero importante ter sempre como referência a criança ou o adolescente que está diante de nós.

As pesquisas podem não ser conclusivas, mas se já sabemos que há uma correlação entre depressão e tempo de telas ou entre privação de sono e tempo de telas, e estamos diante de um adolescente, por exemplo, com um destes sintomas, não é o caso de se recomendar uma diminuição do tempo de exposição? Não devemos, no mínimo, pararmos para discutirmos de forma franca e construtiva a questão e buscarmos soluções conjuntas, que envolvam toda a família?

A reflexão final que gostaria de deixar aqui é: como transformar a experiência das telas, que é no mínimo passiva e pode ser potencialmente negativa, em uma experiência reflexiva e construtiva para a sua família? As telas fazem parte de nossas vidas e não adianta lutar contra elas.

Contudo, podemos nos perguntar como elas podem ser utilizadas para fomentar o desenvolvimento de recursos internos e de valores pessoais e para contribuir para a saúde de nossos filhos e uma vida com mais bem-estar e felicidade?

Para cada família, haverá uma resposta diferente, mas acredito que as respostas e soluções passam, necessariamente, pela construção de relações mais positivas e construtivas em nossos lares. Além disso, precisamos superar posições polarizadas em favor ou contra as telas e pensar em soluções que integrem diferentes opiniões e modos de vida.

Vania Moraes | Psicoterapia, Hipnose e Constelação Familiar

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