Seja grato para ser mais feliz

Todos nós corremos atrás da nossa felicidade, muitas vezes sem saber muito bem o que temos perseguido. Já discutimos anteriormente que um ponto chave para uma vida mais feliz é ter um propósito que fará a sua vida ter significado e que nos trará mais motivação para superarmosos desafios do dia a dia.

Falamos também da importância de se olhar para o passado e ressignificá-lo, construindo uma nova história de vida, sob uma perspectiva mais positiva, e nos libertando de crenças limitadoras que nos prendem e nos impedem de prosperar.

Outro aspecto importante é acrescentarmos momentos de prazer ao nosso dia a dia para não transformarmos a nossa vida, como diz Tal Ben-Shahar no livro Seja Mais Feliz, em uma corrida de ratos em um laboratório.

Há também atitudes simples que podem aumentar o nosso bem-estar e até diminuir a depressão. Uma delas é ser grato. Falamos sobre o poder da gratidão em um dos primeiros post deste site. E isso não foi à toa. A gratidão é um elementado fundamental à nossa felicidade.

No livro Florescer, Martin Seligman nos fala de alguns exercícios simples que podem nos tornar mais felizes e o primeiro deles é escrever uma carta de gratidão. Para isso, basta se lembrar de alguém que tenha feito ou dito algo que mudou a sua vida para melhor e a quem você ainda não tenha tido a oportunidade de agradecer adequadamente. Agora experimente escrever uma carta de gratidão a esta pessoa e entregá-la pessoalmente. Depois me conte como foi que você se sentiu durante a experiência e nos dias seguintes.

Mas por que a gratidão pode nos criar mais felicidade em nossas vidas? Porque quando sentimos gratidão nos beneficiamos de uma lembrança agradável de um acontecimento positivo em nossa vida. Começamos, paulatinamente, a mudar o foco do nosso olhar, acrescentando lentes cor de rosa que nos fazem ver que, apesar de toda e qualquer dificuldade, sempre há algo de bom a que podemos nos sentir gratos.

Todos os meus pacientes atualmente recebem um pequeno diário de gratidão logo nas primeiras sessões. No começo eles não sabem muito bem o que registrar no diário. “Mas o que eu devo escrever?”, perguntam. E eu respondo: “se for um dia bom, escreva sobre o que tornou esse dia bom, se for um dia ruim, seja grato por estar respirando, por exemplo”.

Segundo Tal Ben-Shahar, ao escrever todos os dias sobre três ou cinco aspectos que nos fizeram feliz ao longo do dia, sejam coisas grandes ou pequenas, passamos progressivamente a:

  • manter o frescor das emoções positivas em nossa mente;
  • refletir sobre o significado dos acontecimentos em nossa vida;
  • desfrutar melhor dos momentos bons;
  • valorizar os eventos positivos em vez de considerá-los como algo já garantido ou conquistado.

Em dias de chuva aqui em Brasília, já temos um bom motivo para sermos gratos. Choveu? Registre no seu diário da gratidão! Não choveu, este também pode ser um bom motivo para sermos gratos, não? 😉

Vania Moraes, psicóloga e life coach

O livro Florescer do Martin Seligman está disponível na Amazon: Florescer

O poder da gratidão

Muitos livros de autoajuda têm defendido a importância de sermos gratos no nosso dia a dia como forma de aumentarmos nossa saúde e bem-estar. Culturas e religiões também defendem, quase como uma imposição moral, a importância de agradecermos a algo ou alguém que nos fez bem. No campo científico, contudo, são relativamente recentes os estudos sobre o tema. Com o advento da Psicologia Positiva, os resultados das pesquisas têm demonstrado que autores populares ou líderes religiosos estão corretos: ser grato faz bem sim à nossa saúde.

Mas o que é gratidão? Construto difícil de ser definido, pode estar relacionado a uma emoção, uma atitude, uma virtude moral, um traço de personalidade, entre outros. De forma geral, a noção de gratidão deriva da disposição de perceber um ganho obtido, merecido ou não, associada ao julgamento de que outro ator é responsável pelo este ganho, seja uma outra pessoa ou uma força abstrata como Deus ou a natureza. O ganho pode ser material ou não.

Dois aspectos se destacam na compreensão acima:

  1. A gratidão refere-se a uma disposição de perceber um resultado positivo e de ser grato a isso (trata-se de uma condição ao mesmo tempo cognitiva e emotiva). Pesquisas demonstram que a habilidade de notar, apreciar e saborear os aspectos cotidianos da vida é crucial para o bem-estar das pessoas e a gratidão envolve e reforça esta postura perante a vida.
  2. Uma força externa é responsável pelo resultado obtido. Trata-se, portanto, de uma emoção ou atitude interpessoal, que envolve voltar o olhar para além de si mesmo.

Robert Emmons e Michael McCullough verificaram que atitudes de gratidão aumentam as emoções positivas e o bem-estar das pessoas em diferentes grupos pesquisados. Além disso, em determinados grupos, as pessoas que foram experimentalmente induzidas a serem gratas experimentaram níveis maiores de afetos positivos, foram mais propensas a adotarem comportamentos de suporte ou auxílio a outras pessoas, e/ou perceberam a sua saúde física de forma mais positiva. Assim, em cada estudo, induzir um estado de gratidão por meio de um exercício guiado produziu benefícios emocionais, físicos ou interpessoais.

Contudo, quais mecanismos psicológicos poderiam explicar porque os participantes das pesquisas acima evidenciaram níveis mais altos de bem-estar quando em condições de gratidão? O modelo utilizado por Barbara Fredrickson para explicar as emoções positivas (falaremos mais sobre a produção desta autora em outros posts) pode auxiliar nesta compreensão: emoções positivas ampliam nosso campo de visão (mindset) e constroem forças pessoais duradouras, que serão utilizadas em momentos difíceis futuros. Dentro desta perspectiva, a gratidão é efetiva em aumentar bem-estar porque ela constrói recursos psicológicos, sociais e espirituais, pois ela inspira reciprocidade social e altruísmo, fortalece forças sociais e relacionamentos, além de fazer com que as pessoas se sintam queridas e amadas pelos outros. Tudo isso em razão do que apontamos anteriormente: a gratidão nos faz olhar para fora de nós mesmos e a voltarmos nossa atenção para os outros ao nosso redor.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Referências: Emmons, R. A. e McCullough, M. R. (2003), Counting Blessings Versus Burdens: An Experimental Investigation of Gratitude and Subjective Well-Being in Daily Life. Journal of Personality and Social Psychology (2003), vol. 84. n2. 377-389.