Coronavírus – Um convite ao amadurecimento

“Chegamos a um momento de deixarmos de ter opinião sobre as coisas, porque o que vem por aí é tão diferente e tão novo em relação a tudo o que vivemos, que não vale a pena ter opinião sobre as coisas. É preferível abrirmos às infinitas possibilidades que se mostram, para que através desse olhar atento daquilo que se mostra, encontrarmos o nosso lugar, encontrarmos o que precisa ser feito… permitir viver o momento presente e permitir que as possibilidades nasçam dessa observação”.

Esta frase da terapeuta sistêmica Maria Gorjão Henriques captou minha atenção há algumas semanas. Seu pensamento sobre os efeitos sistêmicos do coronavírus é apresentado no vídeo Fragilidade Sistêmica Mundial.

Dias depois, ao ler o livro Desatando os laços do destino, de Bert Hellinger, o mesmo pensamento se apresentou: a verdade “emerge do oculto e volta a submergir nele. Por isso, tampouco podemos apreendê-la. Nós nunca a seguramos. Alguns julgam que é válida e eterna a verdade que julgam ter nas mãos. Não, a verdade só se mostra por um instante e volta a submergir. Por conseguinte, a cada vez que emerge, ela é diferente.

Nossas verdades submergiram sob os efeitos do coronavírus.

Esta pandemia nos convoca a assumirmos, cotidianamente, a posição de não-saber, de olhar para o fenômeno e tentar apreendê-lo, sem poder contar com nossas referências anteriores. Tudo agora é inusitado e desafiador.

Mas não é assim a Vida?

O vírus nos tira de nossa posição arrogante, na qual já sabemos, e nos remete à nossa condição humana de eternos aprendizes. Tudo são apostas, probabilidades e conjunturas. Já era assim antes, mas a ilusão nos mantinha “a salvo”. Agora ela já não serve mais.

Neste momento de crise, para lidar com a ansiedade do desconhecido apenas a fé nos serve. A fé em algo maior, na Vida, em Deus. Sem fé, e sem que se acredite em um sentido para a vida, só resta o caos. Se você não acredita em Deus, busque acreditar em algo que transforme a sua vida em algo como um propósito pelo qual lutar. Pode ser o amor à sua família, pode ser um trabalho de caridade. Acreditar na positividade é hoje em dia mais do que uma forma de ser mais feliz, mas um mecanismo de sobrevivência e de manutenção do equilíbrio emocional.

É hora de sairmos da ilusão do poder e do controle, uma posição psicologicamente infantil, para amadurecermos e nos colocarmos pequenos diante da grandeza da Vida.

Amadurecer não é se tornar grande, rígido e poderoso, saber-dor de todas as respostas. Amadurecer é se tornar pequeno, humilde, permitindo que o a Vida siga e atue. É permitir que o destino se manifeste e siga seu fluxo. É ter fé no futuro e se reconhecer como não saber-dor (grande parte de nosso sofrimento advém daquilo que “sabemos”, das verdades e crenças que construímos para contar a nossa história pessoal).

Amadurecer é se libertar das ilusões infantis e olhar para a realidade como ela é: fragmentada, temporária e emergente, pois assim o somos enquanto expectadores. E a Verdade só pode ser captada por nossos olhares limitados, de forma limitada. E cada vez que ela emerge, como nos apresenta Hellinger, ela emerge diferente e nosso olhar sobre ela é diferente também.

Amadurecer também é abrir mão do pensamento mágico. Sem autocuidado e sem solidariedade não há saída possível. Eu não existo sem o outro e, portanto, cuidar de mim é cuidar do outro e o cuidado do outro sobre si repercute positivamente em mim. Não há mágica, apenas assunção de responsabilidade. Lembrando que responsabilidade não é poder e controle.

Quando somos pais, empregadores, líderes não temos controle sobre nossos filhos, subordinados ou liderados. Mas quando assumimos estas funções com responsabilidade, admitimos a transitoriedade da vida e tomamos decisões que são na verdade apostas e probabilidades, e nunca respostas definitivas. E tomar uma decisão é sempre um ato de fé. É se jogar no escuro e esperar que dê tudo certo. Ao tomarmos decisões, acolhemos os fragmentos de verdade/realidade de que dispomos, os submetemos às nossas crenças e valores e nos iludimos de que estamos tomando as melhores decisões.

Se a decisão foi feita de uma forma madura e responsável, ela nos traz tranquilidade. Repousamos sobre ela. Se a decisão foi tomada de forma atabalhoada, muito influenciada por nossas questões inconscientes, ela não nos traz conforto, apenas apreensão e insegurança.

Sejamos, portanto, pequenos, maduros e responsáveis. Ao sermos pequenos, aceitamos a Vida tal como ela é e se apresenta momentaneamente. Não lutamos contra ela. Ao sermos responsáveis, assumimos a nossa nobreza diante da grande teia de complexidades e inter-relações que nos compreende e nos abraça.

Vania Moraes – Psicóloga

O Paradoxo do Propósito

“Se um único homem alcançar a mais elevada qualidade de amor, isto será suficiente para neutralizar o ódio de milhões” Mahatma Gandhi

Em um mundo em que a vida parece muitas vezes carecer de sentido, muitos textos  e livros sobre Propósito têm sido divulgados pela mídia. A proliferação de questionamentos sobre qual é o nosso papel na sociedade, sobre qual é a nossa missão de vida, indica que há algo em nossa subjetividade que falta, que denuncia um quê de vazio.

O livro Propósito: a coragem de ser quem somos, de Sri Prem Baba, figura na lista de livros mais vendidos desde o início de 2017. Além de seus seguidores espirituais, muitas outras pessoas em busca de sentido na vida, principalmente na esfera profissional, devoram suas páginas em busca de resposta. Alguns a encontram, outros, não.

Também tem sido muito divulgado o conceito japonês de Ikigai, que seria, em uma tradução livre, a razão de viver, aquilo que nos motiva. O Ikigai seria o ponto de interseção entre:

  1. o que você ama;
  2. aquilo em que você é bom;
  3. algo pelo que você pode ser pago;
  4. o que o mundo precisa.

A mandala abaixo ilustra bem a dinâmica entre esses 4 aspectos:

Psicologia_Positiva_Ikigai

Existe um livro do autor Ken Mogi chamado Ikigai: os cinco passos para encontrar seu propósito de vida e ser mais feliz. E por que mais feliz? Porque desde Victor Frankl, no livro Em busca de sentido, é sabido que significado, sentido e propósito tornam a nossa existência mais satisfatória e feliz.

Conforme apresentei no texto 5 princípios básicos da Felicidade, significado e realização, atributos que permeiam uma vida com propósito, são dois dos cinco ingredientes fundamentais para o bem estar e para a felicidade, conforme formulado pelo grande pesquisador em Psicologia Positiva Martin Seligman.

Tanto a leitura desses livros quanto um trabalho de autoconhecimento por meio de um processo psicoterapêutico podem lhe auxiliar a encontrar o seu propósito, a descobrir um caminho profissional que lhe traga sentido e realização. Mas pensar em propósito, em contribuição para o mundo, também significa pensar em si. E aí está o grande paradoxo que envolve uma vida com propósito.

A nossa primeira e principal missão na vida é o nosso autodesenvolvimento. Se você tiver de investir em um propósito, invista neste: sua melhoria permanente. Toda mudança significativa começa de dentro para fora e só podemos oferecer ao outro aquilo que temos dentro de nós.

A grande contribuição que podemos dar ao mundo é amar, e o movimento em direção ao amor começa dentro de nós mesmos. Por outro lado, e por isso este tema é tão complexo e paradoxal, o movimento em direção a nós mesmos envolve também um movimento em direção ao outro, para que o processo de melhoria interna não seja puramente egoico e, consequentemente, vazio. Autodesenvolvimento envolve primeiro olhar para si, assumindo consciência de quem se é e, em seguida, envolve olhar para o outro com tolerância e empatia.

Encerro com uma citação de Divaldo Franco: “A única forma de mudar o mundo é se nós nos mudarmos interiormente”.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Você quer ter sucesso?

Todo mundo quer ter sucesso na vida. Contudo, muitos desistem e pensam no sucesso apenas como um sonho distante. Outros estão na correria do dia a dia e não têm muita clareza de para onde estão indo. Se tudo mundo quer ter sucesso, mas poucos investem para tanto, e menos pessoas ainda o alcançam, o que acontece?

Como o foco da Psicologia Positiva está no que funciona, para entender melhor o sucesso, as pesquisas e os estudos da área baseiam-se na observação de quem de fato o alcançou. Quais são, portanto, as características das pessoas com sucesso?

Foram mapeados cinco aspectos:

  • Objetivos bem claros
  • Resiliência
  • Otimismo
  • Modelos para copiar
  • Foco nas forças pessoais

Observe que “circunstâncias favoráveis” ou “ser rico” não fazem parte dessa lista. Então, provavelmente, para a maioria das pessoas que obteve sucesso, triunfar não foi uma tarefa fácil.

E a primeira dificuldade começa com a pergunta: O que é sucesso para você? Você tem consciência do que você quer alcançar e do porque isso é importante? Sucesso é um objetivo intangível e precisa ser transformado em algo mais palpável para que você saiba se está indo na direção certa ou não. Onde você estará quando atingir o sucesso que almeja? Você sabe quais os passos necessários para chegar lá?

O segundo ponto está no entendimento de que sucesso trará felicidade e é justamente o contrário. Pessoas felizes têm mais sucesso que pessoas infelizes. Portanto, corra atrás da sua felicidade e você terá sucesso.

E os cinco aspectos apontados acima são justamente características de pessoas felizes. O ponto inicial é ter um propósito, que possa ser convertido em objetivos claros. Ele também precisa ser motivador o suficiente para você ter resiliência diante das dificuldades para que não desista, mas aprenda com os erros e os insucessos, se fortalecendo. Para ser motivador, ele precisa ser importante para você, precisa ser algo que você valorize.

Um propósito de vida é algo que traz valor para você e para os outros. Qual é a sua missão? O que você veio fazer neste mundo, nesta vida? Qual é a sua contribuição? Se você tivesse sucesso em seu propósito e ficasse muito rico com isso, mas as pessoas não pudessem ver a sua riqueza, dinheiro seria importante quando você pensa em ter sucesso? Ou os seus indicadores de sucesso estariam mais relacionados ao que você pode fazer de diferença no mundo?

O otimismo, por outro lado, está relacionado à percepção da sua capacidade de realização. Essa habilidade é potencializada quando utilizamos nossas forças pessoais e quando temos modelos para copiar. Quando obsersamos pessoas que conquistaram aquilo que queremos conquistar, conseguimos aumentar a nossa clareza do que é preciso fazer para alcançarmos aos nossos objetivos. Se você sabe onde quer chegar e tem as forças necessárias para isso, trabalhe com otimismo, pois as suas chances de sucesso são muito grandes! Se ainda lhe falta desenvolver habilidades específicas, utilize suas forças para lhe ajudar a desenvolvê-las.

E, enquanto caminha em direção ao seu propósito, utilizando suas forças pessoais de forma otimista, aprecie o que há de bom na sua vida, torne a sua jornada prazerosa e positiva. Insira momentos de prazer ao longo do dia, tendo cuidado para que eles não te desviem dos seus objetivos.

E tenha sempre em mente: onde você quer estar daqui a 5 anos?

Vania Moraes, psicóloga e life coach

 

Aprecie a jornada

Comentamos no post anterior sobre a importância de se ter um propósito na vida para que ela faça sentido e para que possamos nos sentir realizados. A partir de um ponto de chegada definido, estabelecemos metas e transformamos os desafios em combustível para a ação.

Ter um propósito, portanto, significa investir no futuro. E o presente, como fica? O presente é tão importante quanto. Podemos pensar na vida como uma grande viagem. Temos o nosso ponto de chegada, a nossa estação almejada, seja ela qual for. Mas enquanto trabalhamos nela, enquanto estamos alojados em nossa poltrona no trem, apreciamos as paisagens, fazemos um lanche gostoso pelo caminho e interagimos com as pessoas ao nosso lado.

Se você estiver com um cachorro no carro e abrir a janela, ele vai subir nas patas traseiras para colocar o focinho para fora. Sempre acho engraçado ver esta cena. O cachorro está lá, curtindo o passeio, sem se importar se tem trânsito, se o motorista é barbeiro, se a roupa está bonita, se o cabelo irá bagunçar com o vento. Ele aprecia a jornada. Se tiver alguém para ele latir no caminho, mais divertido fica.

E a gente? A gente tem pressa. E cada dia mais. Estamos preocupados com o futuro, com as contas a pagar, com o chefe para o qual não podemos latir, com o filho que não pára de pular no sofá, com a barriga que insiste em aumentar ao longo dos anos. Nos preocupamos o tempo todo e não apreciamos a jornada.

Se o trânsito está lento, coloque uma música boa para ouvir. Hoje não dependemos mais do rádio para ouvirmos a música que queremos na hora em que queremos. Se o chefe está no seu pé, convide um amigo divertido para tomar um café. Se o filho não pára quieto, aproveite a energia dele e se energize também, volte a ser criança por uns momentos.

Enfim, escolha atividades simples e prazerosas que façam sentido para você. Atividades que lhe tragam satisfação, conexão com as pessoas, que lhe permitam apreciar a paisagem. Se a viagem está longa e cansativa, veja como torná-la mais agradável.

Pare agora e pense em alguma coisa prazerosa que você gostaria de fazer e apenas faça! Não espere a lista de metas do Ano Novo. O presente é o momento ideal.

E, principalmente, comemore as pequenas conquistas cotidianas. Se o que você quer alcançar ainda está muito distante, faça um plano de como chegar até lá e comemore cada pequena vitória. Aprecie o que você já conquistou e seja grato a você e a todos que lhe ajudaram.

O caminho para a felicidade envolve a adoção de hábitos e comportamentos que trazem benefício agora e no futuro. Enquanto perseguimos a nossa razão de ser e de estar no mundo, precisamos ter pequenos momentos de alegria e satisfação ao longo dos dias, conciliando prazer e significado, aproveitando-se a jornada enquanto perseguimos nossas metas de vida.

São os sorrisos que conquistamos ao longo do caminho que tornarão o nosso propósito de vida ainda mais importante e significativo.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

 

Velha demais para isso… será?!!

Falando um pouco mais sobre a busca de um propósito na vida, tenho ouvido muitas pessoas lamentarem que já estão velhas para investirem em seus sonhos, que agora é tarde demais. Geralmente são pessoas que estão na faixa dos 40 a 50 anos e que se percebem em um ponto da vida profissional em que há pouca perspectiva de mudança. Entrar em um novo mercado e competir como os mais jovens para eles é impensável. Os poucos que desafiam esta lógica acabam se tornando exceções heroicas, que, muitas vezes, ganham destaque em matérias na mídia, reforçando o caráter de excepcionalidade de suas ações.

Há aproximadamente dez anos, participei de um curso com Joel Dutra, uma referência no Brasil em gestão de pessoas, no qual ele apresentava dados que indicavam um movimento interessante. Como saímos muito jovens da faculdade e começamos a investir em nossa carreira por volta dos 20 anos, quando chegamos aos 40, duas décadas depois, já temos muito conhecimento e experiência em nosso campo de atuação e, muitas vezes, nos sentimos pouco desafiados e desmotivados. É o momento em que muitos fazem a mudança na carreira, voltando a atenção para antigos projetos juvenis que insistem em nos cutucar de vez em quando. Geralmente surgem novos hobbies ou o investimento em serviços voluntários. Contudo, em meu círculo de convivência, poucas vezes vi este movimento se concretizar em uma verdadeira mudança de carreira, em um recomeçar do zero e partir para o desbravamento de um mundo novo.

Em um contexto de um país economicamente instável e vivenciando crises sucessivas, fica realmente difícil ousar um pouco mais. E é mais sensato fazer mudanças graduais na esfera profissional ou investir na realização de sonhos por meio de hobbies ou de projetos paralelos. A forma não é o mais importante. O que interessa é se mover, voltar a sonhar e transformar os sonhos em ações. Parar de se queixar e começar a transformar a sua própria realidade.

Para além das questões econômicas que não somos capazes de controlar, há aspectos subjetivos e psicológicos que demandam apenas o nosso esforço para que a mudança seja possível. A reflexão proposta aqui, portanto, é sobre o foco que damos em nossas características individuais. Quando dizemos que estamos “velhos demais para isso”, estamos focando em nossos defeitos (em nossa sociedade a juventude é percebida como um valor em si mesmo a ser perseguido eternamente) e não em nossas forças pessoais. A ditadura da perfeição em que vivemos atualmente, além de nos fazer acreditar que não somos bons o suficiente, ainda mata os nossos sonhos mais genuínos. Se, diante de nossos projetos, pararmos de focar em nossas rugas e cabelos brancos e passarmos a pensar em nossas virtudes, os desafios se tornam combustível de ação e não barreiras intransponíveis.

Quando focamos em nossa imperfeição, em nossos defeitos, estamos focando na escassez, na falta, e não na abundância, nas nossas virtudes e em nossos valores pessoais. Para sermos felizes, além de visualizarmos um propósito e exercermos ações em busca deste objetivo, precisamos acreditar em nós mesmos, no que temos de bom a acrescentar ao mundo e, para isso, precisamos ter a coragem de sermos imperfeitos. A permissão para sermos imperfeitos, além de nos libertar, nos possibilita nos conectarmos também. Ao nos permitirmos demonstrar nossas vulnerabilidade, nossa humanidade, permitimos àqueles que nos rodeiam que façam o mesmo e, assim, nos abrimos a conexões verdadeiras e genuínas, que nos farão crescer juntos. O medo de não sermos aceitos, nos mantém desconectados das demais pessoas, assim como o medo de fracassar é o que nos impede de termos sucesso.

Em vez de ficar se perguntando se você merece ser feliz, ser amado e ter sucesso na vida, dê um voto de confiança a si mesmo, siga em frente, trabalhe duro, saia de sua zona de conforto e depois de um tempo, colha os frutos de seu trabalho. E quando começar a ter uma colheita farta, você passará a acreditar mais em si mesmo e os seus defeitos ou a sua idade não terão mais importância.

Clique aqui e assista a um vídeo inspirador de mulheres que começaram a fazer ballet quando conquistaram a maturidade.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Propósito

Pus o meu sonho num navio 
e o navio em cima do mar;
depois abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho dentro de um navio…
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Pus meu sonho no navio, Cecília Meireles

Este poema é uma descrição precisa do que é uma vida sem propósito. Para alcançarmos desejabilidade social, sermos aquilo que achamos que os outros esperam de nós, afundamos o nosso navio dos sonhos em águas profundas. O resultado? Uma aparente perfeição, uma vida padrão, mas sem sentido, e acompanhada de olhos secos e mãos quebradas.

Por diversos motivos, desistimos de nossos sonhos ao longo da estrada. Escolhemos caminhos profissionais que nos trazem conforto e segurança. E seguimos a vida correndo, estressados, esvaziados.

Ter conforto e segurança é ótimo e todos nós deveríamos tê-los, mas a vida precisa ter sentido, significado. Repito: nossa vida precisa ter propósito, seja ele qual for. Para uns, será a vida nos palcos, representar papéis que ilustram a magia da vida humana. Para outros, a vida adquire sentido ao se pintar um quadro, ao se permitir expor seus sentimentos mais profundos por meio dos pinceis e da arte. Abrir um restaurante e oferecer comidas saudáveis pode ser um grande propósito também.

Tenho conversado com muitas pessoas que conquistaram bons empregos, famílias felizes, possuem qualidade de vida, mas que se sentem vazias, como se tudo estivesse um pouco acinzentado. Viver sem propósito é abrir mão do colorido da vida, é anestesiar-se.

O que faz você brilhar? O que o motiva a superar os desafios, a se tornar melhor a cada dia, a estudar, a treinar, a se aprimorar? Qual a sua vocação?

Ter um propósito nos ajuda, inclusive, a passar por momentos difíceis, a superar perdas, fracassos e decepções.

Mas como descobrir o seu propósito, a sua vocação? Como ter coragem de voltar  a sonhar se não sabemos nem por onde começar?

Um caminho é tentar se conectar com sua criança interior, lembrar das brincadeiras de infância, dos sonhos e aspirações infantis. Essas tenras memórias podem nos reconectar com o que há de mais autêntico e genuíno em nós, pois durante a infância ainda não assimilamos completamente os padrões sociais, ainda não aprendemos a ter medo do futuro e a duvidar de nós mesmos.

Outro caminho é refletir sobre três aspectos importantes da vida e como eles se inter relacionam: sentido (o que eu valorizo, o que é importante para mim?), emoções positivas (o que me gera prazer?) e forças pessoais ou competências (o que eu faço bem feito?).

Uma terceira opção é procurar auxílio de um psicoterapeuta. Alguém que lhe auxilie a mergulhar em mares profundos para resgatar seu navio dos sonhos e que o acompanhe até que você esteja apto novamente a navegar levando consigo o seu coração.

Vania Moraes, psicóloga e life coach