O Paradoxo do Propósito

“Se um único homem alcançar a mais elevada qualidade de amor, isto será suficiente para neutralizar o ódio de milhões” Mahatma Gandhi

Em um mundo em que a vida parece muitas vezes carecer de sentido, muitos textos  e livros sobre Propósito têm sido divulgados pela mídia. A proliferação de questionamentos sobre qual é o nosso papel na sociedade, sobre qual é a nossa missão de vida, indica que há algo em nossa subjetividade que falta, que denuncia um quê de vazio.

O livro Propósito: a coragem de ser quem somos, de Sri Prem Baba, figura na lista de livros mais vendidos desde o início de 2017. Além de seus seguidores espirituais, muitas outras pessoas em busca de sentido na vida, principalmente na esfera profissional, devoram suas páginas em busca de resposta. Alguns a encontram, outros, não.

Também tem sido muito divulgado o conceito japonês de Ikigai, que seria, em uma tradução livre, a razão de viver, aquilo que nos motiva. O Ikigai seria o ponto de interseção entre:

  1. o que você ama;
  2. aquilo em que você é bom;
  3. algo pelo que você pode ser pago;
  4. o que o mundo precisa.

A mandala abaixo ilustra bem a dinâmica entre esses 4 aspectos:

Psicologia_Positiva_Ikigai

Existe um livro do autor Ken Mogi chamado Ikigai: os cinco passos para encontrar seu propósito de vida e ser mais feliz. E por que mais feliz? Porque desde Victor Frankl, no livro Em busca de sentido, é sabido que significado, sentido e propósito tornam a nossa existência mais satisfatória e feliz.

Conforme apresentei no texto 5 princípios básicos da Felicidade, significado e realização, atributos que permeiam uma vida com propósito, são dois dos cinco ingredientes fundamentais para o bem estar e para a felicidade, conforme formulado pelo grande pesquisador em Psicologia Positiva Martin Seligman.

Tanto a leitura desses livros quanto um trabalho de autoconhecimento por meio de um processo psicoterapêutico podem lhe auxiliar a encontrar o seu propósito, a descobrir um caminho profissional que lhe traga sentido e realização. Mas pensar em propósito, em contribuição para o mundo, também significa pensar em si. E aí está o grande paradoxo que envolve uma vida com propósito.

A nossa primeira e principal missão na vida é o nosso autodesenvolvimento. Se você tiver de investir em um propósito, invista neste: sua melhoria permanente. Toda mudança significativa começa de dentro para fora e só podemos oferecer ao outro aquilo que temos dentro de nós.

A grande contribuição que podemos dar ao mundo é amar, e o movimento em direção ao amor começa dentro de nós mesmos. Por outro lado, e por isso este tema é tão complexo e paradoxal, o movimento em direção a nós mesmos envolve também um movimento em direção ao outro, para que o processo de melhoria interna não seja puramente egoico e, consequentemente, vazio. Autodesenvolvimento envolve primeiro olhar para si, assumindo consciência de quem se é e, em seguida, envolve olhar para o outro com tolerância e empatia.

Encerro com uma citação de Divaldo Franco: “A única forma de mudar o mundo é se nós nos mudarmos interiormente”.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Felicidade e consumo

Escrevi anteriormente um texto sobre como as nossas escolhas financeiras podem contribuir para o aumento da nossa felicidade. A conclusão de pesquisadores do tema é que investir em experiências (ex: viagem) traz mais felicidade a médio e longo prazo que gastar com objetos (ex: carro). No post apresento essa questão de forma mais aprofundada. Leia que vale a pena.

Me lembrei desse assunto após ler um texto chamado Pessoas felizes não precisam consumir sobre a obra do filósofo Serge Latouche. O primeiro ponto que me chama a atenção é o tema da matéria. A tal felicidade realmente está na moda. Anos atrás não veríamos um texto sobre felicidade divulgado na mídia de forma tão despudorada. Felicidade era um tema secundário, nada sério, associado à auto-ajuda. Agora virou assunto importante e amplamente divulgado. Que bom!

A segunda questão é o velho dilema entre o ser e o ter. Para os psicólogos essa discussão é antiga. Nossa sociedade conseguiu inverter os parâmetros que referenciam o que o ser humano deve ser, afastando-o de uma reflexão sobre quais são os valores e as virtudes fundamentais para a Humanidade e estabelecendo castas de consumo que definem quem você é e o quanto você vale. Dentro dessa lógica, eu não preciso questionar minhas ações, o que é importante para mim e qual o impacto do meu comportamento sobre o mundo. Eu preciso de uma bolsa de marca, um celular de última geração, um carro potente e fotos que atestem isso publicadas no Instagram.

O terceiro ponto é o argumento do texto que indica que o caminho possível para o capitalismo é a diminuição no consumo. Ai estamos falando um pouco de Minimalismo, uma proposta muito interessante de repensar o consumo a partir de valores pessoais e do que é realmente necessário possuir. Sem acúmulos, sem exageros, sem uso de produtos para cobrir falhas de autoestima. Afinal, de quantos pares de sapato você precisa para ser feliz?

Contudo, não podemos reduzir o consumo a uma questão de felicidade ou de autoestima. As pessoas não consomem apenas porque estão infelizes ou insatisfeitas com suas vidas e consigo mesmas. Isso acontece muito sim, mas temos de lembrar que existem milhares de pesquisas em neuromarketing ensinando pessoas a vender produtos a outras que não estão pensando em consumi-las. Criam-se necessidades, valores, soluções para problemas antigos. E tudo isso é muito sedutor.

Enquanto há um ramo da ciência pesquisando sobre como tornar as pessoas mais felizes (Psicologia Positiva), já também inúmeros laboratórios interessados em descobrir como fazer essas mesmas pessoas utilizarem o consumo como suposta forma de diminuir a infelicidade. Geralmente a primeira perde fácil, pois para ser feliz é preciso muito mais esforço do que para comprar algo novo, mesmo que para isso seja necessário se endividar.

Por fim, esse texto mostra que a felicidade não é um assunto individual e egoísta, mas um tema necessário para que toda a Humanidade possa progredir, com menos consumismo, menos degradação ambiental e com escolhas mais conscientes e coerentes com nossos valores pessoais e nosso propósito de vida.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Para ler o texto Pessoas felizes não precisam consumir clique aqui.

Para saber mais sobre o Minimalismo, há boas opções de leitura com preço acessível:

 

 

 

 

Como aumentar a autoestima?

A autoestima está relacionada à imagem que fazemos de nós mesmos e a um julgamento associado a essa imagem. Quanto pior o julgamento que fazemos, pior nos sentimos. Para nos protegermos dessa sensação negativa, criamos as barreiras ao redor de nós mesmos e assumimos atitudes que minimizam o nosso risco de exposição social.

Assim como acontece em outros fenômenos subjetivos, a nossa autoimagem é formada a partir de interpretações que fazemos a nosso respeito, tanto em relação ao nosso corpo físico quanto em relação ao nosso comportamento ou desempenho social. Ao longo do tempo, nos tornamos presos a essa autoimagem e ao que ela significa para nós. Deixamos de frequentar determinados ambientes ou até mesmo sabotamos nossas relações para evitarmos qualquer risco associado a um novo abalo à nossa já enfraquecida autoestima.

Existem dois níveis de problema de autoestima: um situacional e outro caracterológico (associado à identidade pessoal). O primeiro é mais superficial e está associado a determinadas situações ou circunstâncias. Nesse caso, a autoestima está comprometida em alguns aspectos, mas fortalecida em outros. Por exemplo, uma pessoa pode se sentir insegura nos relacionamentos amorosos, mas se sentir em casa em um ambiente corporativo altamente competitivo. Ou, ao contrário, se avaliar como um pai carinhoso e capaz, mas um fracasso no mundo dos negócios.

Para superar problemas de autoestima em nível situacional, a principal ferramenta é o tratamento das distorções cognitivas, que ocorre principalmente por meio da ênfase nas forças pessoais, do desenvolvimento de novas aptidões e da modificação de padrões de pensamento que conduzem a interpretações negativas sobre determinado comportamento ou característica pessoal.

Já problemas de autoestima relacionados à própria identidade pessoal, que conduzem a pessoa a um sentimento de ser ruim, envolvem um trabalho mais profundo. Nesse caso, a mudança dos padrões de pensamento apenas não é suficiente, pois a pessoa tende a se sentir incapaz e inapta em várias esferas da vida. Para pessoas que possuem esse tipo de problema de autoestima, o tratamento deve repousar na própria identidade pessoal, de onde se originam os pensamentos negativos.

Um ponto fundamental para modificação da identidade pessoal é o desenvolvimento de comportamentos de bom desempenho que vão, pouco a pouco, auxiliando na mudança de nossa percepção sobre nós mesmos. Dessa forma, para além do sentir-se bem consigo, é preciso principalmente investir em ações que reforcem a percepção de autoeficácia. Repetir para si mesmo que se é bom em algo sem sê-lo de fato não nos convence e gera dissonâncias cognitivas que não irão fortalecer a nossa autoestima.

Assim, alteração de autoimagem exige esforço, desempenho e não é feito de um dia para outro. Mas a partir do momento que começamos a perceber que nosso esforço vai, aos poucos, melhorando a nossa performance, seja em qual esfera da vida estamos nos dedicando (trabalho, estudos, relacionamentos) vamos nos sentindo melhor com nós mesmos.

Durante este processo, é necessário também assumir um compromisso de não julgamento e o desenvolvimento de compaixão por si mesmo.

Quando fortalecemos a nossa autoestima, ampliamos a nossa sensação de liberdade. Nos sentimos seguros e capazes de ousarmos mais, de agirmos em direção às nossas metas e de caminharmos com mais determinação em direção ao nosso propósito de vida. Para isso, o primeiro passo é identificar se a nossa autoestima está fortalecida ou se há problemas em níveis mais superficiais ou profundos. Em seguida, investir na mudança do nosso padrão de pensamento, minimizando distorções e cultivando a nossa autoaceitação.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Você não precisa ser feliz

Nenhuma emoção é feita para durar para sempre, mesmo aquelas que nos fazem bem. Um conhecimento superficial da Psicologia Positiva pode nos levar a acreditar que precisamos ser felizes. Mas não se trata de perseguirmos um ideal de felicidade permanente e falacioso. A proposição é aumentar a positividade em nossas vidas utilizando nós mesmos como referência, com ponto de partida.

É por isso que esse blog se chama “Você Mais Feliz”: como você pode ser um pouco mais feliz do que costuma ser? Você se sente deprimido? Como podemos lhe ajudar a se sentir um pouco menos esvaziado amanhã? Se sente ansioso? Como reduzir um pouco da ansiedade e inserir momentos de tranquilidade em seu dia a dia? Essa é a nossa proposta de trabalho.

Não se trata, portanto, de um mantra “seja positivo não importa o que aconteça”. A proposta é ser autêntico, humano, estar aberto a todas as coisas boas que acontecem em nossas vidas e às quais não prestamos atenção ou não valorizamos. Também temos como objetivo ajudar você a ressignificar eventos negativos e traumáticos para que, além do sofrimento, eles também possam contribuir para o seu crescimento pessoal.

Não se trata de forçarmos a felicidade em nossa vida, mas de estarmos abertos a ela. É mais efetivo focarmos nas circunstâncias do nosso dia a dia e tentarmos aumentar a positividade nos eventos cotidianos que tentarmos controlar as nossas emoções para nos sentirmos felizes, pois isso é artificial.

E como fazemos isso? Priorizando atividades que irão nos proporcionar emoções positivas e quando elas surgirem, darmos a devida atenção a elas. Quantas vezes deixamos de tomarmos um café com um amigo querido porque temos algo urgente para fazer e que se pensarmos um pouco não é tão urgente assim?

Quando priorizarmos a positividade em nossa vida, ampliamos a quantidade de emoções positivas que experimentamos, nos sentimos mais satisfeitos com a vida de forma geral, reduzimos sintomas depressivos, melhoramos nossos relacionamentos e nos tornamos mais resilientes. Diante de todos esses benefícios eu te pergunto: você já sabe o que contribui para a sua vida ser mais feliz? Já começou a priorizar o que é mais importante para você?

Vania Moraes, psicóloga e life coach

O papel evolutivo das emoções positivas

Este é o terceiro post de uma série de textos sobre as emoções. Vamos falar agora da importância delas para a sobrevivência e para a evolução da humanidade.

Da mesma forma como acontece com as emoções negativas, as emoções positivas também possuem grande valor evolutivo para a espécie humana. Enquanto as negativas nos preparam para sobreviver ao aqui e agora, as positivas nos preparam para “sobrevivermos” no futuro.

As emoções negativas nos induzem a uma ação específica (fuga, por exemplo), ao passo que as emoções positivas funcionam no sentido contrário: elas enriquecem o nosso repertório comportamental e nos proporcionam maior abertura para o novo.

Como isso acontece? As emoções positivas ampliam nossos “modelos mentais” (mindset) e nos tornam mais abertos a novas experiências. Por exemplo, se você vai a uma palestra sobre um assunto novo e se sente feliz por ter ido, aumentam as chances de você ir a outras palestras no futuro. À medida que você tem contato com novos assuntos, sua visão de mundo se amplia e você adquire diferentes conhecimentos e habilidades. Se, em outro exemplo, você conhece uma pessoa e daí nasce uma amizade que lhe traz alegria, aumentam a chance de você se abrir para conhecer novas pessoas e construir novas amizades. Assim, quanto mais experienciamos emoções positivas, mais nos tornamos abertos, interessados, criativos, resilientes, generosos e conectados. Com isso, ampliamos nossos recursos pessoais.

Observamos, portanto, que as emoções positivas nos ajudam a lidar com situações relacionadas, prioritariamente, ao nosso crescimento e desenvolvimento pessoal e não  à nossa sobrevivência física. Assim, os benefícios não são percebidos imediatamente, mas nos momentos seguintes. E, por isso, elas ajudam na construção do nosso futuro, produzindo efeitos profundos e duradouros.

Mas não adianta sentirmos emoções positivas de forma espaçada. Elas precisam estar presentes de forma significativa em nosso dia a dia. Para explicar essa noção, a pesquisadora Barbara Fredrickson utiliza a metáfora da nutrição: não adianta comermos bem de vez em quando. Para termos uma alimentação efetivamente saudável, os bons nutrientes devem fazer parte da nossa dieta cotidiana.

Falamos em outra ocasião sobre a sutileza e a fugacidade das emoções positivas. Mas apesar dessas características, elas são motores poderosos que nos impulsionam, pois ampliam a nossa visão sobre a vida e enriquecem nosso repertório comportamental.

Quer aprender mais sobre as nossas emoções? Então leia aqui e aqui as publicações anteriores sobre o tema.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Emoções positivas contrabalançam as negativas

Dando continuidade ao estudo das emoções, neste post irei escrever sobre o equilíbrio necessário entre as emoções positivas ou negativas.

Os eventos negativos quando ocorrem tendem a receber maior atenção que os positivos. Evolutivamente, isso permitiu que estivéssemos alertas em situações ameaçadoras. Dessa forma, nosso cérebro foi desenhado de forma a nos proteger dos perigos, focando mais nossa atenção no que pode ser ruim ou hostil.

As reações corporais desencadeadas com as emoções negativas também tendem a ser mais fortes e claras. Quando sentimos medo, tristeza ou raiva, todo o nosso organismo parece ser tomado pela emoção. Assim, diante de um evento negativo, dedicamos maior atenção e experienciamos uma maior reação corporal, o que fortalece a nossa percepção negativa e a nossa memorização do acontecimento. Isto é conhecido pelos pesquisadores como o viés negativo (negative bias) das emoções.

Emoções positivas, por outro lado, são muito mais sutis e o viés negativo pode nos cegar diante das oportunidades de sentirmos emoções positivas. Quando acontece algo ruim no nosso trabalho, por exemplo, o dia todo parece marcado por aquele evento e tudo o que aconteceu de bom adquire uma tonalidade menos viva. É como se o nosso cérebro delineasse com uma caneta marca texto os eventos ruins e deixasse em segundo plano os acontecimentos positivos. Enquanto sentimos raiva com bastante vitalidade, a serenidade, a gratidão e a alegria são percebidas de forma muito mais leve e suave.

Para contrabalançar esse viés negativo, é preciso estar familiarizado com a sutileza das emoções positivas e estar com o marcador colorido a postos para assinalá-las quando elas surgirem. Mas além do uso da nossa atenção consciente diante das nossas emoções positivas, temos também uma ajuda da própria natureza. Com exceção de pessoas que vivem em situações de extrema pobreza ou em regiões de conflito, para a maioria dos seres humanos, os eventos positivos são muito mais frequentes que os negativos. Dessa forma, haveria uma compensação positiva (positive offset) do viés negativo por meio da frequência maior de eventos positivos.

Para permitir, entretanto, que um evento positivo se transforme em uma emoção positiva é preciso atenção, abertura e predisposição. Do contrário, as emoções positivas podem ser vivenciadas como “neutras”. Uma das dez emoções positivas categorizadas pela pesquisadora Barbara Fredrickson é o interesse. Se você é uma pessoa que se sente a maior parte do tempo interessada e curiosa sobre o que acontece ao seu redor, sobre a magnitude de nossa existência, você pode tender a achar que isso é algo banal. Contudo se você começar a perceber que seu interesse pela vida é de fato uma emoção positiva e que nem todo mundo se sente assim, você pode passar a valorizar essa sensação e perceber que a sua vida é repleta de emoções positivas.

Além do interesse, as outras nove emoções positivas são: amor, alegria, gratidão, serenidade, esperança, orgulho, diversão, inspiração e admiração. Veja abaixo uma tabela com as principais características de cada um delas:

Psicologia_Positiva_Emoçoes_positivas

Se você tende a prestar pouca atenção ao que acontece de positivo em seu dia a dia, um bom exercício é o diário de gratidão (você pode ler mais sobre ele aqui), um treino excelente para nos ensinarmos a focar no que acontece de bom em nossa vida, equilibrando a balança das emoções naturalmente.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Psicologia Positiva não é ser feliz o tempo todo

Sempre que um movimento social começa a ganhar força, logo surgem seus opositores. Com a Psicologia Positiva (PP) não é diferente e à medida que ela cresce e se destaca no Brasil, começam a surgir textos e matérias em oposição, afirmando que a venda da felicidade é falacioso e enganoso, pois incutiria na população uma imposição de um padrão comportamental que conduziria à ansiedade e à frustração.

Barbara Fredrickson, uma das principais referências em PP e pesquisadora das emoções positivas há mais de 20 anos, diz que um conhecimento superficial da PP pode produzir mais malefícios que benefícios, pois pode induzir a uma percepção equivocada da área, que corroborariam as críticas acima apontadas. Foi por isso que escrevi o texto de hoje: para esclarecer e alertar que PP não é sobre ser feliz o tempo todo.

O primeiro ponto, discutido aqui anteriormente no texto Permissão para ser humano, é que somos plurais e todas as emoções que compõem a nossa vida são importantes, sejam elas positivas ou negativas. A raiva, a tristeza, o desgosto, o medo nos acompanham desde a nossa origem pré-história e serviram e ainda servem a nossa sobrevivência individual e como espécie. Além disso, para além de sua função evolucionista, as emoções negativas nos permitem sentir empatia, promover mudanças sociais importantes e nos impulsionam para a ação. E mesmo que elas não fossem cruciais em nossas vidas, a PP não seria ingênua de achar que seria capaz de desenvolver ações e terapêuticas capazes de acabar com a infelicidade. Isso seria charlatanismo.

O que a PP propõe, ao contrário, é acrescentar (e não substituir) o estudo das emoções positivas, do bem estar e da felicidade, das forças pessoais e das virtudes humanas aos tradicionais campos de pesquisa da Psicologia, ampliando-os e não reduzindo-os. A PP também se dispõe a pesquisar formas de aumentar a positividade em nossa vida, ja sabendo de antemão que a negatividade faz parte de nossa condição humana, nos ensinando como viver a vida de forma a favorecer e reforçar as emoções positivas e a diminuir a duração e o impacto das emoções negativas.

Vivemos em um momento em que a PP está na moda, principalmente depois da ascensão do Coaching no Brasil. E isso é muito bom. Contudo, poucas são as pessoas que realmente se preocupam em ter uma formação aprofundada na área e em conhecer essa ciência a fundo. Por isso, muitas vezes a PP soa como algo banal e fantasioso, pois começou a ser propagada de forma superficial e, algumas vezes, equivocada.

Por traz disso, há algumas vezes o interesse mercadológico em vender uma solução rápida para o sofrimento humano. Contudo, não há mágica. Para aprender a ser mais feliz, é necessário um esforço diário para a mudança de hábitos e de padrões mentais arraigados. E o que a PP tem a oferecer são descobertas científicas que nos apontam caminhos simples, práticos e duradouros nessa eterna jornada em direção à felicidade.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Psicologia Positiva não é autoajuda

Quer encontrar um livro de Psicologia Positiva (PP)? Vá até a sessão de autoajuda da livraria mais próxima. Você vai encontrar livros muito bons por lá. Antes de ir à sessão de livros de Psicologia, eu sempre passo antes pela Autoajuda e é lá que eu encontro os melhores materiais de estudo. Por que isso acontece?

Provavelmente porque se trata de uma grande mudança de paradigma na Psicologia. Antigamente, assuntos como felicidade, bem-estar, propósito não eram objeto de estudo científico de forma sistematizada e residiam de forma preponderante no campo da autoajuda. Sair de um modelo focado na doença e no sofrimento para uma linha teórica focada na felicidade é uma mudança muito ampla e significativa para a Psicologia. Assim, pode ficar parecendo que muitas das coisas que os autores de PP divulgam em seus livros é autoajuda mesmo. Mas não é.

Qual a diferença? Existem várias. A primeira delas é que PP é ciência. Os principais autores da área escrevem dos maiores centros de pesquisa em Psicologia do mundo. Eles estão conectados com o que está sendo produzido de mais moderno na área de comportamento humano e de neurociências. São atualizados e inovadores. Assumiram o compromisso de romper com a crença comum de que a Psicologia deve se ater ao sofrimento psíquico. Mesmo porque a melhor forma de combater a depressão é por meio de uma vida com significado e prazerosa, temas de estudo da PP.

Outra grande diferença é que a PP não fornece fórmulas prontas de felicidade. Os estudos indicam que emoções positivas, engajamento, relacionamentos gratificantes, ter um propósito na vida e nossas realizações pessoais são aspectos que tornam nossa vida mais feliz. Mas construir emoções positivas, encontrar o que faz sentido para cada um, ajudar a superar os desafios de um relacionamento difícil, ir em busca de nossas realizações não são passíveis de serem aprendidos em livros. Eles podem até nos indicar caminhos, mas a jornada é muito mais complexa do que as leituras de autoajuda nos fazem crer.

E cada um irá descobrir o seu próprio caminho. O que faz a vida ter sentido para mim é com certeza diferente do que faz ela ter sentido para você. E o respeito à subjetividade e à trajetória individual e social de uma pessoa é uma das grandes contribuições da Psicologia para a Humanidade, seja ela de qual linha teórica for.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Psicologia Positiva não é pensamento positivo

Um resultado positivo dificilmente advém de um pensamento negativo, mas isso acontece. E não é tão raro assim, pois os resultados que colhemos são fruto de nossas ações, de nossos comportamentos, de nossos hábitos e também de nossos pensamentos.

Tudo começa pelo pensamento. Mas não termina nele. Há uma sequência de eventos, desde o pensar e o imaginar até o atingimento de um objetivo. Se apenas pensamos de forma positiva, mas não partimos para a ação e para o empenho individual, dificilmente colheremos os frutos de nossos pensamentos, salvo um acaso da sorte. E você não quer apenas contar com a sorte, quer?

Além disso, há pessoas pessimistas e ansiosas que alcançam bons resultados, provavelmente porque se preparam para enfrentar as adversidades que supõem que irão encontrar. O problema nesses casos é que trata-se de uma jornada de sofrimento, desgastante, que muitas vezes não compensa o objetivo alcançado. E é provável que o resultado fosse ainda melhor se além do bom desempenho, houvesse bons pensamentos associados a ele.

Há vários estudos que demonstram que a nossa mente não diferencia a nossa imaginação ou conteúdos assistidos em um filme da realidade. E as pesquisas já avançaram tanto nesse campo que há muito tempo o treinamento de atletas de alta performance já envolve a simulação mental do desempenho em uma competição.

Charles Duhigg, em seu livro O Poder do Hábito, cita a rotina de treinamentos do campeão olímpico de natação Michael Phelps. Parte dos seus treinos consistia em se imaginar nadando em sua melhor performance, segundo a segundo, simulando mentalmente a totalidade de seus movimentos, sentido o contato do seu corpo com a água, a resistência que essa oferecia, o momento certo de virar. Por que ele fazia isso e tantos outros atletas fazem isso atualmente? Porque o ensaio mental nos prepara para enfrentarmos desafios reais.

Mas ele não é suficiente. É preciso praticar, praticar, praticar. Errar, aprender com os erros, reforçar os acertos e perseverar. Se mantemos um pensamento positivo enquanto lutamos pelo que queremos conquistar, excelente! O pensamento positivo irá nos trazer otimismo, resiliência, resistência à frustração e nos ajuda a superarmos as nossas crenças limitantes. Mas pensamento positivo não é suficiente. A ação é sempre necessária.

Por isso, Psicologia Positiva começa com o pensamento sim. É ele que nos traz clareza sobre o nosso propósito, que nos ajuda a formular objetivos, nos mantém conectados com o que faz sentido para nós e nos organiza para a ação. Mas Psicologia Positiva também está relacionada com hábitos e rotinas saudáveis, viabilizadores de felicidade, e com comportamentos produtivos e realizadores.

Portanto, além de um pensamento positivo, tenha um comportamento positivo.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Você quer ter sucesso?

Todo mundo quer ter sucesso na vida. Contudo, muitos desistem e pensam no sucesso apenas como um sonho distante. Outros estão na correria do dia a dia e não têm muita clareza de para onde estão indo. Se tudo mundo quer ter sucesso, mas poucos investem para tanto, e menos pessoas ainda o alcançam, o que acontece?

Como o foco da Psicologia Positiva está no que funciona, para entender melhor o sucesso, as pesquisas e os estudos da área baseiam-se na observação de quem de fato o alcançou. Quais são, portanto, as características das pessoas com sucesso?

Foram mapeados cinco aspectos:

  • Objetivos bem claros
  • Resiliência
  • Otimismo
  • Modelos para copiar
  • Foco nas forças pessoais

Observe que “circunstâncias favoráveis” ou “ser rico” não fazem parte dessa lista. Então, provavelmente, para a maioria das pessoas que obteve sucesso, triunfar não foi uma tarefa fácil.

E a primeira dificuldade começa com a pergunta: O que é sucesso para você? Você tem consciência do que você quer alcançar e do porque isso é importante? Sucesso é um objetivo intangível e precisa ser transformado em algo mais palpável para que você saiba se está indo na direção certa ou não. Onde você estará quando atingir o sucesso que almeja? Você sabe quais os passos necessários para chegar lá?

O segundo ponto está no entendimento de que sucesso trará felicidade e é justamente o contrário. Pessoas felizes têm mais sucesso que pessoas infelizes. Portanto, corra atrás da sua felicidade e você terá sucesso.

E os cinco aspectos apontados acima são justamente características de pessoas felizes. O ponto inicial é ter um propósito, que possa ser convertido em objetivos claros. Ele também precisa ser motivador o suficiente para você ter resiliência diante das dificuldades para que não desista, mas aprenda com os erros e os insucessos, se fortalecendo. Para ser motivador, ele precisa ser importante para você, precisa ser algo que você valorize.

Um propósito de vida é algo que traz valor para você e para os outros. Qual é a sua missão? O que você veio fazer neste mundo, nesta vida? Qual é a sua contribuição? Se você tivesse sucesso em seu propósito e ficasse muito rico com isso, mas as pessoas não pudessem ver a sua riqueza, dinheiro seria importante quando você pensa em ter sucesso? Ou os seus indicadores de sucesso estariam mais relacionados ao que você pode fazer de diferença no mundo?

O otimismo, por outro lado, está relacionado à percepção da sua capacidade de realização. Essa habilidade é potencializada quando utilizamos nossas forças pessoais e quando temos modelos para copiar. Quando obsersamos pessoas que conquistaram aquilo que queremos conquistar, conseguimos aumentar a nossa clareza do que é preciso fazer para alcançarmos aos nossos objetivos. Se você sabe onde quer chegar e tem as forças necessárias para isso, trabalhe com otimismo, pois as suas chances de sucesso são muito grandes! Se ainda lhe falta desenvolver habilidades específicas, utilize suas forças para lhe ajudar a desenvolvê-las.

E, enquanto caminha em direção ao seu propósito, utilizando suas forças pessoais de forma otimista, aprecie o que há de bom na sua vida, torne a sua jornada prazerosa e positiva. Insira momentos de prazer ao longo do dia, tendo cuidado para que eles não te desviem dos seus objetivos.

E tenha sempre em mente: onde você quer estar daqui a 5 anos?

Vania Moraes, psicóloga e life coach

 

Você conhece suas forças pessoais?

Tenho certeza de que você é capaz de encher uma folha de caderno com os seus defeitos… E as suas qualidades, você conhece? Quais são suas competências e habilidades? Você consegue responder a essa pergunta com facilidade? Sente vergonha em dizer em voz alta que você é bom em alguma coisa?

Geralmente nós focamos a nossa atenção nos nossos defeitos. Somos criados desta forma e aprendemos a sempre estar atentos ao que podemos fazer melhor. É a velha história de tentar ensinar o peixe a voar em vez de incentivá-lo a ser o peixe mais rápido do cardume. Quando recebíamos uma prova corrigida na escola, olhávamos para as questões que erramos e nem tomávamos consciência das questões que acertamos. O erro torna-se o foco da nossa atenção desde muito cedo em nossa vida.

A consequência mais comum disso é que não nos tornamos conscientes de nossas forças pessoais, que são as ferramentas de trabalho que carregamos conosco e que podem nos ajudar a superar os desafios e as dificuldades. Assim os problemas se tornam mais difíceis de serem superados, pois não temos ciência de quais são os recursos intrapessoais de que dispomos para resolvê-los. Se Mateus tem elevada capacidade de liderança, mas, por outro lado, é desorganizado, um bom exercício é começar a ser líder de si mesmo, distribuindo suas atividades, estabelecendo suas metas, acompanhamento seus resultados da mesma forma como ele faz com a sua equipe. Se Marlene tem uma grande capacidade de amar e está com dificuldade de cuidar da sua saúde, se alimentar bem e praticar exercícios, por exemplo, porque não voltar essa capacidade de amor para si mesma, se amando a ponto de cuidar de si como cuida dos demais?

São questões simples, que fazem diferença significativa em nossas vidas, mas que muitas vezes passam desapercebidas na correria do dia a dia. Como nosso olhar está treinado para buscar o erro, para encontrar os defeitos, não desenvolvemos a capacidade de nos apropriarmos de nossas forças pessoais para as utilizarmos sempre que precisamos. Fazemos isso com nossas vidas, com nossos filhos, com nossas equipes de trabalho. As avaliações de desempenho nas organizações valorizam o que pode ser melhorado em vez de reforçar os pontos positivos. Os diagnósticos buscam identificar os problemas, em detalhar e aprofundar no que não está indo bem. Por que não começarmos a focar no que funciona em nossas vidas, naquilo em que somos bons?

Experimente conhecer e fortalecer as suas forças pessoais e você sentirá efeitos imediatos em sua felicidade.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Seja grato para ser mais feliz

Todos nós corremos atrás da nossa felicidade, muitas vezes sem saber muito bem o que temos perseguido. Já discutimos anteriormente que um ponto chave para uma vida mais feliz é ter um propósito que fará a sua vida ter significado e que nos trará mais motivação para superarmosos desafios do dia a dia.

Falamos também da importância de se olhar para o passado e ressignificá-lo, construindo uma nova história de vida, sob uma perspectiva mais positiva, e nos libertando de crenças limitadoras que nos prendem e nos impedem de prosperar.

Outro aspecto importante é acrescentarmos momentos de prazer ao nosso dia a dia para não transformarmos a nossa vida, como diz Tal Ben-Shahar no livro Seja Mais Feliz, em uma corrida de ratos em um laboratório.

Há também atitudes simples que podem aumentar o nosso bem-estar e até diminuir a depressão. Uma delas é ser grato. Falamos sobre o poder da gratidão em um dos primeiros post deste site. E isso não foi à toa. A gratidão é um elementado fundamental à nossa felicidade.

No livro Florescer, Martin Seligman nos fala de alguns exercícios simples que podem nos tornar mais felizes e o primeiro deles é escrever uma carta de gratidão. Para isso, basta se lembrar de alguém que tenha feito ou dito algo que mudou a sua vida para melhor e a quem você ainda não tenha tido a oportunidade de agradecer adequadamente. Agora experimente escrever uma carta de gratidão a esta pessoa e entregá-la pessoalmente. Depois me conte como foi que você se sentiu durante a experiência e nos dias seguintes.

Mas por que a gratidão pode nos criar mais felicidade em nossas vidas? Porque quando sentimos gratidão nos beneficiamos de uma lembrança agradável de um acontecimento positivo em nossa vida. Começamos, paulatinamente, a mudar o foco do nosso olhar, acrescentando lentes cor de rosa que nos fazem ver que, apesar de toda e qualquer dificuldade, sempre há algo de bom a que podemos nos sentir gratos.

Todos os meus pacientes atualmente recebem um pequeno diário de gratidão logo nas primeiras sessões. No começo eles não sabem muito bem o que registrar no diário. “Mas o que eu devo escrever?”, perguntam. E eu respondo: “se for um dia bom, escreva sobre o que tornou esse dia bom, se for um dia ruim, seja grato por estar respirando, por exemplo”.

Segundo Tal Ben-Shahar, ao escrever todos os dias sobre três ou cinco aspectos que nos fizeram feliz ao longo do dia, sejam coisas grandes ou pequenas, passamos progressivamente a:

  • manter o frescor das emoções positivas em nossa mente;
  • refletir sobre o significado dos acontecimentos em nossa vida;
  • desfrutar melhor dos momentos bons;
  • valorizar os eventos positivos em vez de considerá-los como algo já garantido ou conquistado.

Em dias de chuva aqui em Brasília, já temos um bom motivo para sermos gratos. Choveu? Registre no seu diário da gratidão! Não choveu, este também pode ser um bom motivo para sermos gratos, não? 😉

Vania Moraes, psicóloga e life coach

O livro Florescer do Martin Seligman está disponível na Amazon: Florescer

Modelo Hambúrguer de Felicidade

Tal Ben-Shahar, no livro Seja Mais Feliz, apresenta um capítulo inteiro sobre a necessidade de conciliarmos o presente e o futuro. Tenho falado bastante sobre isso por aqui: a nossa felicidade deve ser vista como uma linha temporal contínua, em que vamos pouco a pouco plantando as sementes de uma vida próspera e feliz.

Neste capítulo, Tal nos narra um episódio de sua vida em que estava treinando para um torneio anual de squash. Como parte de seu treinamento, ele havia adotado uma dieta bastante equilibrada  e, por isso, prometeu a si mesmo um prêmio ao final do torneio: um porre de junk food. Assim, quando o torneio acabou, a primeira coisa que Tal fez foi comprar 4 (!!!) hambúrgueres do seu sabor favorito.

Após um mês de restrições, ele iria agora se esbaldar! Contudo, antes de dar a primeira mordida no primeiro hambúrguer, Tal parou e percebeu que ele não queria comer todos aqueles sanduíches de uma vez, pois apesar da privação pela qual passou, ele se sentia bem e saudável. Ele percebeu que uma orgia alimentar não lhe faria bem, não o tornaria mais feliz e satisfeito, pelo contrário.

Foi assim que ele desenvolveu o “modelo hambúrguer” de felicidade, associando um hambúrguer para cada arquétipo de felicidade:

  1. Hedonismo: o primeiro arquétipo/hambúrguer refere àquele a que ele tinha acabado de renunciar, ou seja, o junk food e que está associado ao benefício presente com um dano futuro. Este modelo é o terror das dietas, pois comemos o brigadeiro hoje sem nos lembrarmos do pneuzinho de amanhã!
  2. Rato de laboratório: o segundo arquétipo refere-se ao benefício futuro com um dano presente. Ou seja, seria comer um hambúrguer saudável e insosso. É o que faz o rato de laboratório, quando se priva de algo no presente para alcançar um ganho no futuro.
  3. Niilismo: já pensou comer um hambúrguer sem graça e ainda por cima não saudável? É o que meu amigo César chama de “caloria inútil”: te engordou sem lhe proporcionar nenhum prazer. É o dano presente com um dano futuro. Esse modelo se aplica a alguém que não desfruta o presente sem ter também a noção de objetivo futuro.
  4. Felicidade: que tal um hambúrguer gostoso e saudável? Algo que lhe trará benefício presente e futuro? Esta é a receita da felicidade: atividades prazerosas no presente que também nos trazem satisfação futura.

Esses quatro modelos acima são simplificações teóricas e não pessoas reais, mas eles nos ajudam a entender quais são os modelos de felicidade que estamos empregando em nossas vidas e porque muitas vezes as coisas não estão saindo como esperávamos. No dia a dia, adotamos um pouco de cada um desses modelos, mas tendemos a agir mais de uma forma que de outra.

Alguém que se priva da convivência da família e dos amigos para crescer na carreira, tende a adotar mais o modelo “rato de laboratório”, pois está sacrificando o seu presente em busca de uma satisfação futura. Quem vive uma vida de prazeres imediatos (comida, sexo, drogas, jogos, etc), privilegia o hedonismo e muitas vezes sacrifica o seu futuro, tanto em termos de saúde quando de realização pessoal. Por outro lado, quem deixou de acreditar no significado da vida, seguindo preso às suas crenças limitantes, tende a seguir um modelo mais niilista. Tenho visto pessoas jovens presas a este modelo, sem capacidade de sonhar com o futuro, arrastando-se como se tivesse 200 anos e não 20, 30, 40 ou 60. Por fim, há aqueles que aprenderam a sabedoria da vida: fizeram as pazes com o seu passado, apreciando a beleza do presente e admiram um futuro lindo e repleto de significados.

E você? Em qual modelo de felicidade você está apoiando as suas escolhas de vida?

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Revisitando o passado

Nos dois últimos textos, falamos sobre o presente e o futuro. No futuro é onde alocamos nossos sonhos, nosso propósito de vida, nossos projetos pessoais. No presente, está o prazer da jornada, a necessidade de sermos felizes agora, enquanto caminhamos. Mas tanto o nosso presente quanto o nosso futuro estão intimamente relacionados ao nosso passado, à nossa história de vida e, principalmente, aos significados que atribuímos a tudo o que vivenciamos.

É no passado que construímos as crenças que nos limitam e nos impedem de avançar e de alcançarmos sucesso e realização. Fico pensando sobre onde estaríamos agora se não fossem as âncoras que criamos a partir de nossas crenças… Com certeza nosso barco já teria avançado mais e estaríamos para além do nosso campo de visão atual, em mar aberto.

Criamos nossas crenças limitantes com o objetivo de nos protegermos do sofrimento, para evitarmos que nosso barco fique à deriva. Contudo, para não naufragarmos, mantemos o barco atracado, preso às nossas auto-limitações. De que serve um barco que não navega? E como navegar em alto mar sem correr nenhum risco?

Grande parte de nossas crenças autolimitantes são construídas a partir dos outros, principalmente nossos pais. Herdamos medos, expectativas, desilusões. Também criamos crenças a partir de eventos e dos significados que atrelamos a esses eventos. Se vou mal na prova de matemática é porque “não sou bom com números“. Se minha namorada me troca por outro é porque “não tenho sorte no amor“. Se perco dinheiro em um investimento ruim, é porque “não nasci para ganhar dinheiro“. E por aí vai…

E essas pseudo verdades são repetidas por nós mesmos até se tornarem verdades de fato. Ajustamos nossos comportamentos a essas crenças de forma a não contrariá-las, pois precisamos que elas sejam verdadeiras para que o mundo seja um lugar seguro e previsível para vivermos. Além disso, elas nos mantém em nossa zona de conforto. Para que vamos perder tempo estudando se não temos vocação com números mesmo? Aos poucos vamos reduzindo nossas possibilidades e potencialidades na vida. Vamos acreditando que podemos menos, que merecemos menos, que somos menos.

A boa notícia é que do mesmo jeito que nossas crenças podem nos limitar, elas também podem nos fazer brilhar! Seguindo a mesma lógica, se acreditamos que somos bons nadadores, iremos nadar bem. Se acreditarmos que somos inteligentes, teremos facilidade em aprender. Se nos consideramos esforçados, não vamos desistir facilmente.

E você? Quais são as crenças que estão limitando ou impulsionando a sua vida? Reveja suas verdades e aposte que você pode ir mais além. Se você acreditar que pode ser feliz, você será, pois seus pensamentos e decisões estarão conectados com este propósito de felicidade. Caso tenha dificuldade em descobrir quais são suas crenças, pois geralmente elas estão atreladas a conteúdos inconscientes, ou emocionalmente dolorosos, procure ajuda de um profissional.

O importante é acreditar e seguir em frente. Sempre. Como diriam os Los Hermanos: “Aponta pra fé e rema…”

Vania Moraes, psicóloga e life coach

 

Aprecie a jornada

Comentamos no post anterior sobre a importância de se ter um propósito na vida para que ela faça sentido e para que possamos nos sentir realizados. A partir de um ponto de chegada definido, estabelecemos metas e transformamos os desafios em combustível para a ação.

Ter um propósito, portanto, significa investir no futuro. E o presente, como fica? O presente é tão importante quanto. Podemos pensar na vida como uma grande viagem. Temos o nosso ponto de chegada, a nossa estação almejada, seja ela qual for. Mas enquanto trabalhamos nela, enquanto estamos alojados em nossa poltrona no trem, apreciamos as paisagens, fazemos um lanche gostoso pelo caminho e interagimos com as pessoas ao nosso lado.

Se você estiver com um cachorro no carro e abrir a janela, ele vai subir nas patas traseiras para colocar o focinho para fora. Sempre acho engraçado ver esta cena. O cachorro está lá, curtindo o passeio, sem se importar se tem trânsito, se o motorista é barbeiro, se a roupa está bonita, se o cabelo irá bagunçar com o vento. Ele aprecia a jornada. Se tiver alguém para ele latir no caminho, mais divertido fica.

E a gente? A gente tem pressa. E cada dia mais. Estamos preocupados com o futuro, com as contas a pagar, com o chefe para o qual não podemos latir, com o filho que não pára de pular no sofá, com a barriga que insiste em aumentar ao longo dos anos. Nos preocupamos o tempo todo e não apreciamos a jornada.

Se o trânsito está lento, coloque uma música boa para ouvir. Hoje não dependemos mais do rádio para ouvirmos a música que queremos na hora em que queremos. Se o chefe está no seu pé, convide um amigo divertido para tomar um café. Se o filho não pára quieto, aproveite a energia dele e se energize também, volte a ser criança por uns momentos.

Enfim, escolha atividades simples e prazerosas que façam sentido para você. Atividades que lhe tragam satisfação, conexão com as pessoas, que lhe permitam apreciar a paisagem. Se a viagem está longa e cansativa, veja como torná-la mais agradável.

Pare agora e pense em alguma coisa prazerosa que você gostaria de fazer e apenas faça! Não espere a lista de metas do Ano Novo. O presente é o momento ideal.

E, principalmente, comemore as pequenas conquistas cotidianas. Se o que você quer alcançar ainda está muito distante, faça um plano de como chegar até lá e comemore cada pequena vitória. Aprecie o que você já conquistou e seja grato a você e a todos que lhe ajudaram.

O caminho para a felicidade envolve a adoção de hábitos e comportamentos que trazem benefício agora e no futuro. Enquanto perseguimos a nossa razão de ser e de estar no mundo, precisamos ter pequenos momentos de alegria e satisfação ao longo dos dias, conciliando prazer e significado, aproveitando-se a jornada enquanto perseguimos nossas metas de vida.

São os sorrisos que conquistamos ao longo do caminho que tornarão o nosso propósito de vida ainda mais importante e significativo.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

 

Velha demais para isso… será?!!

Falando um pouco mais sobre a busca de um propósito na vida, tenho ouvido muitas pessoas lamentarem que já estão velhas para investirem em seus sonhos, que agora é tarde demais. Geralmente são pessoas que estão na faixa dos 40 a 50 anos e que se percebem em um ponto da vida profissional em que há pouca perspectiva de mudança. Entrar em um novo mercado e competir como os mais jovens para eles é impensável. Os poucos que desafiam esta lógica acabam se tornando exceções heroicas, que, muitas vezes, ganham destaque em matérias na mídia, reforçando o caráter de excepcionalidade de suas ações.

Há aproximadamente dez anos, participei de um curso com Joel Dutra, uma referência no Brasil em gestão de pessoas, no qual ele apresentava dados que indicavam um movimento interessante. Como saímos muito jovens da faculdade e começamos a investir em nossa carreira por volta dos 20 anos, quando chegamos aos 40, duas décadas depois, já temos muito conhecimento e experiência em nosso campo de atuação e, muitas vezes, nos sentimos pouco desafiados e desmotivados. É o momento em que muitos fazem a mudança na carreira, voltando a atenção para antigos projetos juvenis que insistem em nos cutucar de vez em quando. Geralmente surgem novos hobbies ou o investimento em serviços voluntários. Contudo, em meu círculo de convivência, poucas vezes vi este movimento se concretizar em uma verdadeira mudança de carreira, em um recomeçar do zero e partir para o desbravamento de um mundo novo.

Em um contexto de um país economicamente instável e vivenciando crises sucessivas, fica realmente difícil ousar um pouco mais. E é mais sensato fazer mudanças graduais na esfera profissional ou investir na realização de sonhos por meio de hobbies ou de projetos paralelos. A forma não é o mais importante. O que interessa é se mover, voltar a sonhar e transformar os sonhos em ações. Parar de se queixar e começar a transformar a sua própria realidade.

Para além das questões econômicas que não somos capazes de controlar, há aspectos subjetivos e psicológicos que demandam apenas o nosso esforço para que a mudança seja possível. A reflexão proposta aqui, portanto, é sobre o foco que damos em nossas características individuais. Quando dizemos que estamos “velhos demais para isso”, estamos focando em nossos defeitos (em nossa sociedade a juventude é percebida como um valor em si mesmo a ser perseguido eternamente) e não em nossas forças pessoais. A ditadura da perfeição em que vivemos atualmente, além de nos fazer acreditar que não somos bons o suficiente, ainda mata os nossos sonhos mais genuínos. Se, diante de nossos projetos, pararmos de focar em nossas rugas e cabelos brancos e passarmos a pensar em nossas virtudes, os desafios se tornam combustível de ação e não barreiras intransponíveis.

Quando focamos em nossa imperfeição, em nossos defeitos, estamos focando na escassez, na falta, e não na abundância, nas nossas virtudes e em nossos valores pessoais. Para sermos felizes, além de visualizarmos um propósito e exercermos ações em busca deste objetivo, precisamos acreditar em nós mesmos, no que temos de bom a acrescentar ao mundo e, para isso, precisamos ter a coragem de sermos imperfeitos. A permissão para sermos imperfeitos, além de nos libertar, nos possibilita nos conectarmos também. Ao nos permitirmos demonstrar nossas vulnerabilidade, nossa humanidade, permitimos àqueles que nos rodeiam que façam o mesmo e, assim, nos abrimos a conexões verdadeiras e genuínas, que nos farão crescer juntos. O medo de não sermos aceitos, nos mantém desconectados das demais pessoas, assim como o medo de fracassar é o que nos impede de termos sucesso.

Em vez de ficar se perguntando se você merece ser feliz, ser amado e ter sucesso na vida, dê um voto de confiança a si mesmo, siga em frente, trabalhe duro, saia de sua zona de conforto e depois de um tempo, colha os frutos de seu trabalho. E quando começar a ter uma colheita farta, você passará a acreditar mais em si mesmo e os seus defeitos ou a sua idade não terão mais importância.

Clique aqui e assista a um vídeo inspirador de mulheres que começaram a fazer ballet quando conquistaram a maturidade.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

Propósito

Pus o meu sonho num navio 
e o navio em cima do mar;
depois abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho dentro de um navio…
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Pus meu sonho no navio, Cecília Meireles

Este poema é uma descrição precisa do que é uma vida sem propósito. Para alcançarmos desejabilidade social, sermos aquilo que achamos que os outros esperam de nós, afundamos o nosso navio dos sonhos em águas profundas. O resultado? Uma aparente perfeição, uma vida padrão, mas sem sentido, e acompanhada de olhos secos e mãos quebradas.

Por diversos motivos, desistimos de nossos sonhos ao longo da estrada. Escolhemos caminhos profissionais que nos trazem conforto e segurança. E seguimos a vida correndo, estressados, esvaziados.

Ter conforto e segurança é ótimo e todos nós deveríamos tê-los, mas a vida precisa ter sentido, significado. Repito: nossa vida precisa ter propósito, seja ele qual for. Para uns, será a vida nos palcos, representar papéis que ilustram a magia da vida humana. Para outros, a vida adquire sentido ao se pintar um quadro, ao se permitir expor seus sentimentos mais profundos por meio dos pinceis e da arte. Abrir um restaurante e oferecer comidas saudáveis pode ser um grande propósito também.

Tenho conversado com muitas pessoas que conquistaram bons empregos, famílias felizes, possuem qualidade de vida, mas que se sentem vazias, como se tudo estivesse um pouco acinzentado. Viver sem propósito é abrir mão do colorido da vida, é anestesiar-se.

O que faz você brilhar? O que o motiva a superar os desafios, a se tornar melhor a cada dia, a estudar, a treinar, a se aprimorar? Qual a sua vocação?

Ter um propósito nos ajuda, inclusive, a passar por momentos difíceis, a superar perdas, fracassos e decepções.

Mas como descobrir o seu propósito, a sua vocação? Como ter coragem de voltar  a sonhar se não sabemos nem por onde começar?

Um caminho é tentar se conectar com sua criança interior, lembrar das brincadeiras de infância, dos sonhos e aspirações infantis. Essas tenras memórias podem nos reconectar com o que há de mais autêntico e genuíno em nós, pois durante a infância ainda não assimilamos completamente os padrões sociais, ainda não aprendemos a ter medo do futuro e a duvidar de nós mesmos.

Outro caminho é refletir sobre três aspectos importantes da vida e como eles se inter relacionam: sentido (o que eu valorizo, o que é importante para mim?), emoções positivas (o que me gera prazer?) e forças pessoais ou competências (o que eu faço bem feito?).

Uma terceira opção é procurar auxílio de um psicoterapeuta. Alguém que lhe auxilie a mergulhar em mares profundos para resgatar seu navio dos sonhos e que o acompanhe até que você esteja apto novamente a navegar levando consigo o seu coração.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

 

Lembranças positivas

Dia desses meu filho levou um grande tombo de bicicleta ao não conseguir fazer uma curva em velocidade. Horas antes ele tinha visto um ciclista cair também, em razão de um pneu furado. No dia seguinte, as duas histórias haviam se misturado em sua mente: ele caiu de bicicleta porque o pneu furou.

Já reparou que cada pessoa lembra de um evento de uma forma? Passei a minha infância brincando com meu irmão. Quando falamos desta fase de nossa vida, cada um conta uma história diferente, com lembranças e significados distintos. Quem está contanto a verdade? Os dois.

Nossa memória não funciona como um computador, apesar das diversas metáforas utilizadas para comparar os dois sistemas de armazenamento de informações. Enquanto um funciona como um depósito de registros, o outro percebe, seleciona, interpreta, registra e, ao vivenciar novas experiências, ressignifica os arquivos anteriores. Assim, nossa memória é viva e vai sendo construída sob a interferência de nossas emoções e pensamentos.

A subjetividade presente no mecanismos de memorização e de recordação que constroem nossas lembranças nos permite ter influência sobre o processo. Podemos filtrar e reinterpretar nossa lembranças, mesmo que inconscientemente, de acordo com as personagens que criamos para nós mesmos.

Freud foi o primeiro a utilizar este mecanismo na clínica do sofrimento mental. Ao falar sobre um trauma e poder ressignificá-lo, o paciente se torna autor de sua história e deixa de ser vítima dos acontecimentos.

Martim Seligman escreveu sobre este processo em seu livro “Florescer” ao discorrer sobre o conceito de Crescimento Pós-Traumático. Enquanto nos casos de Estresse Pós-Traumático a pessoa fica presa em suas memórias negativas em razão da violência presenciada e sofre com diversos sintomas associados a estas memórias (lembranças angustiantes, recorrentes e involuntárias do evento traumático, pesadelos, flashbacks, etc), no Crescimento Pós-Traumático o evento negativo é reinterpretado sob uma nova ótica e torna-se uma oportunidade de crescimento pessoal.

Não se trata de minimizar o sofrimento associado aos eventos traumáticos, mas de limitar o efeito negativo deles sobre a nossa existência. Em vez de deixa-los reverberar indefinidamente, comprometendo a nossa qualidade de vida e permitindo que eles gerem ainda mais sofrimento, podemos mudar o foco e transformá-lo em uma experiência transformadora, em um ponto de mudança, limitando o sofrimento e se permitindo ser feliz novamente.

Vania Moraes, psicóloga e life coach

O livro Florescer do Martin Seligman está disponível na Amazon: Florescer

 

Permissão para ser humano

Muitas críticas à Psicologia Positiva relacionam-se ao entendimento equivocado de que esta disciplina apregoa a felicidade plena. Não se trata disso. Primeiro que a felicidade permanente não existe, pelo menos não na realidade que vivenciamos atualmente. Segundo, somos humanos e, portanto, passíveis de sentirmos toda a sorte de emoções. E mais que isso: sentir tristeza é fundamental para que também possamos sentir alegria. As duas emoções trafegam pelo mesmo canal e este deve estar desbloqueado para que elas possam fluir.

Assisti recentemente a um pequeno vídeo que ilustra muito bem isso. Ahmad Joudeh, um bailarino sírio (se ser bailarino no Brasil já é difícil, imagina na Síria!), fala sobre o preconceito e as dificuldades para dançar ballet em seu país de origem, principalmente após o início da guerra. Desafiando todo o status quo e correndo o risco de ser sumariamente executado em um anfiteatro, seu amor à dança percorreu o mundo e comoveu pessoas que puderam lhe ajudar. Ahmad foi então convidado pelo Dutch Nacional Opera & Ballet a integrar a companhia e a se mudar para a Holanda.

Teoricamente, um final feliz. Mas a nossa mente não funciona bem assim. Ao chegar à Amsterdã e poder ensinar e dançar ballet sem sofrer com os preconceitos e, principalmente, vivenciando a realidade de um país em paz, Ahmad sentiu culpa por sentir-se feliz. Pois é. Ele relata então algo que tem tudo a ver com a Psicologia Positiva: a guerra, que fez milhares de pessoas vivenciarem grandes perdas, o havia anestesiado. Para não sentir tanta dor, tanto medo, tanto terror, ele bloqueou suas emoções negativas, mas ao fazer isso, ele havia bloqueado as emoções positivas também. Assim, quando vivenciou aquele sentimento de felicidade que nos transborda, sentiu estranhamento e culpa. Sua tarefa agora era aprender a sentir novamente e permitir-se ser humano.

Em nossos pequenos dramas cotidianos, também nos fechamos para as emoções negativas. Bloqueamos tudo o que nos faz sofrer. Como efeito colateral, a alegria, a gratidão, a compaixão, o contentamento, também vão ficando mais distantes e a nossa vida, em vez de colorida, vai ficando cada dia mais cinza. Sentir raiva, inveja, tristeza, portanto, faz parte de nossa natureza humana e é o que nos torna tão plurais. Temos de reaprender a sentir e a nos permitirmos sermos algo que na infância aprendemos que era “feio”.

Na tentativa de nos ensinar a não sermos agressivos, a não roubarmos, a não mentirmos, nossos pais e educadores muitas vezes confundiram nossos comportamentos e emoções.  Até hoje, na vida adulta, as coisas ainda são muito confusas para nós e nos sentimos culpados pelos nossos sentimentos negativos e, por isso, os negamos ou os bloqueamos (A Psicologia Junguiana chama isso de Sombra). Mas sentir raiva e bater em alguém são fenômenos muito diferentes. O primeiro pertence ao campo das emoções, o segundo, das ações.

Precisamos policiar nossas ações para termos atitudes respeitosas com os outros e conosco mesmos. Mas nossas emoções são todas lícitas e fazem parte da nossa natureza humana. Vamos nos permitir sermos humanos!

Saiba mais assistindo ao filme Divertidamente , um desenho de animação da Disney que retrata muito bem a importância que as diferentes emoções possuem em nossa vida. 🙂

Vania Moraes, psicóloga e life coach